Quem não conheceu a tentação de ser o primeiro na cidade nada compreenderá do jogo político, da vontade de submeter os outros para deles fazer objectos, nem adivinhará os elementos de que é composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros são os que não a tenham num grau ou noutro experimentado: é-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os carácteres de um estado mórbido do qual apenas nos curamos por acidente ou então por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua glória, ensinou ao mundo que o excesso de cansaço podia suscitar cenas tão admiráveis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a renúncia, desafio às nossas contantes, à nossa identidade, sobrevém somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o filósofo e perturba profundamente o historiador.
Emil Cioran, in 'História e Utopia'
Publicado por pns em janeiro 20, 2005 12:30 AMO prólogo da renúncia do poder é magnífico. Cioran,como famoso escritor francês, de certa forma experimentou a tal renúncia em menor magnitude.
É característica do homem renunciar com o tempo a tais atitudes, um amadurecimento que derruba a sua natureza e torna-o sábio de si e de todos.
A renúncia de Carlos V foi um ótimo exemplo, mas a conotação do historiador como alguém que procura um "ato de coragem" é contestante. Como estudioso do homem,assim como o filósofo, também busca ele tal satisfação nesta renúncia...