Há pessoas muito competentes no seu ofício mas que nunca se adaptam a certos obstáculos menores, como a nomes que desconhecem e saem do habitual. Também nunca sabem usar uma chave de fendas e não são capazes de conhecer uma marca de carros pelas jantes, por exemplo. Cada indivíduo tem um espaço muito limitado de operação e o seu cérebro trabalha num pequeno circuito de observações; a sua evolução é restrita ao que o rodeia e aos factos exteriores mais próximos. A educação sem grandes exigências de comportamento social e intelectual, leva-os a formar uma personalidade mesquinha, às vezes ressentida e admiradora de extremos, como da liderança dum chefe.
Agustina Bessa-Luís, in 'Antes do Degelo'
Publicado por pns em janeiro 23, 2005 07:49 PMA educação comportamental a que se refere Bessa-Luís deve ser analisada mais como um limite pessoal que uma exigência social. Se para as pequenas coisas não presta-se a devida atenção, ou por sentir-se reduzido mediante ação mínima sendo adepto do "isso não é tarefa que me preza. Já estou acima disto" ou por preguiça e desleixo, considere-se um semi-escravo de seus próprios proveitos.
Seguindo as observações da autora, deveríamos tomar juízo perante tal situação de forma que nunca dependessemos da ação exclusiva de outros. "Exerçamos nosso instinto sociabilizador não acomodando-se no braço que o carrega", era o que dizia Platão. Nunca saberemos a ocasião inevitável e repentina em que o ignorar comodista (esta atitude plenipotente a que alguns aproveitam terreno fértil para reproduzir)poderá ruir.Está aí o ofício da vida,muito além daquele ofício engravatado e habitual...