O especialista serve-nos para concretizar energicamente a espécie e fazer ver todo o radicalismo da sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é «um homem de ciência» e conhece muito bem a sua fracção de universo. Devemos dizer que é um sábio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio.
E, com efeito, este é o comportamento do especialista. Em política, em arte, nos usos sociais, nas outras ciências tomará posições de primitivo, e ignorantíssimo; mas tomará essas posições com energia e suficiência, sem admitir – e isto é o paradoxal – especialistas dessas coisas. Ao especializá-lo a civilização tornou-o hermético e satisfeito dentro da sua limitação; mas essa mesma sensação íntima de domínio e valia vai levá-lo a querer predominar fora da sua especialidade. E a consequência é que, ainda neste caso, que representa um maximum de homem qualificado – especialismo – e, portanto, o mais oposto ao homem-massa, o resultado é que se comportará sem qualificação e como homem-massa em quase todas as esferas da vida.
A advertência não é vaga. Quem quiser pode observar a estupidez com que pensam, julgam e actuam hoje na política, na arte, na religião e nos problemas gerais da vida e do mundo os «homens de ciência», e é claro, depois deles, médicos, engenheiros, financeiros, professores, etc. Essa condição de «não ouvir», de não se submeter a instâncias superiores que reiteradamente apresentei como característica do homem-massa, chega ao cúmulo nesses homens parcialmente qualificados. Eles simbolizam, e em grande parte constituem o império actual das massas, e a sua barbárie é a causa mais imediata da desmoralização europeia.
Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'
Publicado por pns em fevereiro 18, 2005 12:30 AMMuito boa esta reflexão, pois a meu ver aponta uma das feridas actuais das ditas sociedades modernas: a falta de individuos que não estejam compremetidos com os lugares de poder que ocupam mas sim com as necessidades dos cidadãos.
É deveras verdade,meu caro Virgílio,mas é importante lembrar a todos que não estamos mais em fase fordista,lembra-se? Hoje, anos após Ortega y Gasset, estamos vivendo a era onde a prioridade é qualificar.
Afixado por: Phil em fevereiro 23, 2005 05:32 PMFlexibiliza-se. O objetivo é o ganho total. Não contrata-se mais mestres em porcas,mas verdadeiros "faz de tudo".
Afixado por: Phil em fevereiro 23, 2005 05:38 PMNa época de Ortega y Gasset, estes "carneirinhos enjaulados" era um aposição de destaque. Sobrevivia ele na sua ignorância incutida na sua sabedoria(conforme o bem dito trecho).
É decerto que não podemos segregar suas partes em política,economia e demais. Uma sempre há de estar ligada a outra para satisfazer seus aprimoramentos. Por isso, existirá sempre a busca da necessidade da atualização progressiva e pelo saber como prova de progresso e,quem sabe,da difícil civilização.
Afixado por: Phil em fevereiro 23, 2005 05:40 PM