O nosso «amor pelo próximo» não será o desejo imperioso de uma nova propriedade? E não sucede o mesmo com o nosso amor pela ciênica, pela verdade? E, mais geralmente, com todos os desejos de novidade? Cansamo-nos pouco a pouco do antigo, do que possuímos com certeza, temos ainda necessidade de estender as mãos; mesmo a mais bela paisagem, quando vivemos diante dela mais de três meses, deixa de nos poder agradar, qualquer margem distante nos atrai mais: geralmente uma posse reduz-se com o uso. O prazer que tiramos a nós próprios procura manter-se, transformando sempre qualquer nova coisa em nós próprios; é precisamente a isso que se chama possuir.
Cansar-se de uma posse é cansar-se de si próprio. (Pode-se também sofrer com o excesso; à necessidade de deitar fora, pode assim atribuir-se o nome lisonjeiro de «amor). Quando vemos sofrer uma pessoa aproveitamos de bom grado essa ocasião que se oferece de nos apoderarmos dela; é o que faz o homem caridoso, o indivíduo complacente; chama também «amor» a este desejo de uma nova posse que despertou na sua alma e tem prazer nisso como diante do apelo de uma nova conquista. Mas é o amor de sexo para sexo que se revela mais nitidamente como um desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, quer ter um poder absoluto tanto sobre a sua alma como sobre o seu corpo, quer ser amado unicamente, instalar-se e reinar na outra alma como o mais alto e o mais desejável.
Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'
Publicado por pns em fevereiro 21, 2005 07:23 PM Ninguém sabe amar! Nietzsche também não sabia! É de uma extrema indelicadeza apresentar o problema e não tocar em assunto sobre sua solução, mas precisamos nos confundir para nos esclarecer. Sejamos indelicados!
Não é amor, nem posse:é um "sei-lá-o-quê"; puro desvario.
Concordo consigo,chico. Nietzsche fica no limear do problema e termina por generalizar a grande gama existente do que SÃO o amor. É decerto que em muitas cabeças rodopiam o sentimento da posse,quase como um objeto,que muitas vezes pode virar uma residência ou quem sabe uma prisão...Além desta, existe também o da compaixão, onde a piedade,ou melhor, o gozo da sua imagem no outro refletida ou ameaçada, vira objeto de ação e prática.
O amor têm sempre suas duas faces da moeda,uma positiva e outra negativa,estando estas ao completo extremo da outra. Por assim serem, são provas exímias da importância que carregam, como sentimento, como experiência,como vivência e,sobretudo, fortalecimento próprio da mente.
Apesar de toda a explicação de sua definição, digo convictamente, que o assunto é de muitas reticências...
Afixado por: Phil em fevereiro 28, 2005 01:35 AM