março 01, 2005

O Homem-Massa

Numa boa ordenação das coisas públicas, a massa é o que não actua por si mesma. Tal é a sua missão. Veio ao mundo para ser dirigida, influída, representada, organizada – até para deixar de ser massa, ou, pelo menos, aspirar a isso. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Necessita referir a sua vida à instância superior, constituída pelas minorias excelentes. Discuta-se quanto se queira quem são os homens excelentes; mas que sem eles – sejam uns ou outros – a humanidade não existiria no que tem de mais essencial, é coisa sobre a qual convém que não haja dúvida alguma, embora leve a Europa todo um século a meter a cabeça debaixo da asa, ao modo dos estrúcios para ver se consegue não ver tão radiante evidência. Porque não se trata de uma opinião fundada em factos mais ou menos frequentes e prováveis, mas numa lei da «física» social, muito mais incomovível que as leis da física de Newton. No dia em que volte a imperar na Europa uma autêntica filosofia – única coisa que pode salvá-la –, compreender-se-á que o homem é, tenha ou não vontade disso, um ser constitutivamente forçado a procurar uma instância superior. Se consegue por si mesmo encontrá-la, é que é um homem excelente; senão, é que é um homem-massa e necessita recebê-la daquele.

Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'

Publicado por pns em março 1, 2005 12:05 AM
Comentários

Embora não seja esse o sentido que Ortega e Gasset quiz dar, por massa podemos entender a dimensão relativa do Homem e do cosmos em que nos esbatemos tal qual formiga em carreiro. A pretensão que nos podemos evidenciar só é positiva se for para o bem do próximo, em sentido lato. Os que se põem em bicos de pés, ou fazem muito barulho com futilidades, não chegarão nunca às minorias excelentes mesmo quando procuram o Ser Superior.

Afixado por: Fernando Araújo em março 2, 2005 10:48 AM
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