São raras as acções, que sejam ilustres por si mesmas; dificilmente haverá algumas, que não deixem conhecer que vêm do homem. As mais das cousas admiram-se, porque se não conhecem; e juntamente porque nelas há um rico véu, que as cobre: vemos um exterior brilhante, que muitas vezes serve de esconder um abismo horrendo; a mesma luz arma-se de raios, para que não possa examinar-se de onde lhe vêm os resplandores; a formusura em tudo nos atrai; a nossa admiração não pode passar além; donde a encontra, aí fica suspensa, e cega.
Isto sucede nas acções dos homens; as mais sublimes, parece que nos cegam, e suspendem; e talvez seriam detestáveis, se lhes não ignorássemos as causas. Tudo o que tem ar de grande prende a nossa imaginação de sorte, que não fica livre para discorrer na cousa, senão no estado de grandeza em que a vê, e não para indagar de onde veio, nem como veio.
Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'
Publicado por pns em março 18, 2005 11:50 PMBem feitio este trecho do livro deste pensador desconhecido,todavia de grande valia.
É exatamente esta a falha de todos os homens que um dia ascendem ao trono do poder,seja este político,econômico ou social. Perde-se no abismo da escuridão,pois cega-se nos refletores e a pessoa caminha enganando a si mesmo e a todos os outros que por algum desvio continuam acreditando naquilo que já fora/ou nunca se foi.
Afixado por: Phil em março 26, 2005 03:10 AM