A fraqueza dos nossos sentidos impede-nos o gozar das cousas na sua simplicidade natural. Os elementos não são em si como nós os vemos: o ar, a água, e a terra a cada instante mudam, o fogo toma a qualidade da matéria que o produz, e tudo enfim se altera, e se empiora para ser proporcionado a nós. A virtude muitas vezes se acha com mistura de algum vício; no vício também se podem encontrar alguns raios de virtude; incapazes de um ser constante, e sólido, dificilmente se pode dar em nós virtude sem mancha, ou perfeito vício: a justiça também se compõe de iniquidade, semelhante à harmonia, que não pode subsistir sem dissonância, antes com correspondência certa, a dissonância é uma parte da harmonia. Vemos as cousas pelo modo com que as podemos ver, isto é, confusamente, e por isso quási sempre as vemos como elas não são.
As paixões formam dentro de nós um intrincado labirinto, e neste se perde o verdadeiro ser das cousas, porque cada uma delas se apropria à natureza das paixões por onde passa. Tomamos por substância, e entidade, o que não é mais do que um costume de ver, de ouvir, e de entender; a vaidade, que de todas as paixões é a mais forte, a todas arrasta, e dá ao nosso conceito a forma que lhe parece; o entendimento é como uma estampa, que se deixa figurar, e que facilmente recebe a figura que se lhe imprime.
A vaidade propõe, e decide logo, de sorte que quando as cousas chegam ao entendimento já este está vencido; o que faz é aprovar o preconceito anterior, que a vaidade lhe introduz, e assim quando a vaidade busca o entendimento é só por formalidade, e só para a defender, e autorizar, e não para aconselhar. O discorrer com liberdade, supõe uma exclusão de todas as paixões; que os homens se possam isentar de algumas, pode ser, mas que de todas fique isento ao mesmo tempo, é mui difícil.
Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'
Publicado por pns em março 26, 2005 11:50 PMBastante filosófico este trecho acima.
Realmente quando cremos em algo,com paixão e verdade,apegando-nos a características que anulam muitos de nossos sentidos. Isto ocorre porque pensamos no objeto almejado superior aquilo que naturalmente o monta e remonta.
O interessante de tudo isso é como o ser humano se incorpora no ambiente multiforme já que vê nas coisas uma relação intrinseca existente,quase cega entre ela e ele no mundo. Sua visão e seu pesar vêm desta sua relação que naturalmente foi vestígios de outras relações que ainda persistem em existir.
Nada é para sempre no mundo interiorano das complexidades máximas. Não seria esta uma virtude relevante? Acredito que o único pesar de tudo recairia não sobre a natureza externa,simples e diversa existente,mas a interna,esta que até nome teve:a humana.
Afixado por: Phil em abril 2, 2005 07:33 PM