Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revoluções diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa constância; tudo consiste em representação que começa, não para existir, mas para acabar; menos para ser, que para ter sido. Vimos ao mundo a mostrar-nos, e a fazer parte da diversidade dele; as cousas parece que nos vão fugindo, até que nós vimos a desaparecer também. Somos formados de inclinações opostas entre si, e temos em nós uma propensão oculta, que sobre a aparência de buscar os objectos, só procura neles a mudança.
A inconstância nos serve de alívio, e desoprime, porque a firmeza é como um peso, que não podemos suportar sempre, por mais que seja leve; e com efeito como podem as nossas ideias serem fixas, e sempre as mesmas, se nós sempre vamos sendo outros? Tudo nos é dado por um certo tempo; em breves dias, e em breves horas se desvanece a razão da novidade, que nos fazia apetecer; fica invisível aquele agrado, que nos tinha induzido para desejar. Quantas vezes esperamos as sombras da noite com mais fervor do que as luzes do dia; não por vício do desejo, mas porque não temos forças para suportar o bem, nem para conservar o mal?
Tudo nos cansa: não só nos é preciso constância para sofrer; também necessitamos paciência para gozar; a mesma delícia nos importuna. Perdemos as cousas, primeiro pela nossa indiferença, que pelo fim delas; primeiro porque se acaba em nós o gosto, do que nelas a duração; unicamente sensíveis quando começamos a ter, ou a alcançar; então gozamos, depois só possuímos. Os objectos depois de vistos muitas vezes, ficam como diferentes da primeira vez que os vimos; perdem todo o nosso reparo, e atenção: os olhos facilmente se esquecem do que sempre vêem; não porque o costume nos tire a admiração, mas porque a fraqueza dos nossos sentidos a não pode conservar.
Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'
Publicado por pns em abril 2, 2005 04:13 PMSim! O homem se cansa por natural! Como seria cansativo a vivência na Terra onde todos fossem iguais e não mudassem? Se assim fosse, chamaríamos a pessoa não pelo nome,mas pelas características: "o arrogante","o mentiroso",etc.
Ninguém é de todo bom ou ruim. Tudo é mutável e mutante. Todavia de uma coisa podemos estar parcialmente firmes e seguros: de que o convívio pode desnudar a natureza formada desde a infância, sobre como a pessoa agirá ou pensará em dadas situações.
A natureza de uma pessoa geralmente só se altera após uma grave lesão cerebral ou trauma na vida. :)
Ou ainda se esta sofrer uma crise de identidade...
Afixado por: Phil em abril 7, 2005 07:07 PMRefleti bastante sobre este tema durante estes ultimos dias. Realmente, tudo é um eterno vir-a-ser, tudo flui, se transforma. Nunca se é o mesmo durante muito tempo. Ao relembrarmos a infância, a adolescência e até mesmo na maturidade podemos observar que nossa interpretação da realidade é completamente diversa em cada uma destas fases. Ao mesmo tempo, não controlamos nada. Situações positivas, que gostaríamos que permanecessem "ad eternum", dissolvem-se perante nossos olhos sem que nada possamos fazer, já que vários outros "eus" estão envolvidos e podem estar tomando rumos diversos daquele que gostaríamos de tomar.
Afixado por: silvia em maio 21, 2005 01:37 AM