Não se é escritor por se ter preferido dizer certas coisas, mas por se ter preferido dizê-las duma certa maneira. E o estilo faz, evidentemente, o valor da prosa. Mas deve passar despercebido. Uma vez que as palavras são transparentes e que o olhar as atravessa, seria absurdo meter entre elas vidros despolidos. Aqui, a beleza é apenas uma força doce e insensível.
Num quadro, brilha antes de mais nada; num livro, esconde-se, age por persuasão como o encanto duma voz ou dum rosto, não obriga, faz curvar sem que se dê por isso e pensa-se ceder aos argumentos quando afinal se é solicitado por um encanto imperceptível. A cerimónia da missa não é a fé, ela dispõe a isso; a harmonia das palavras, a sua beleza, o equilíbrio das frases, dispõem as paixões do leitor sem que ele dê por isso, ordenam-nas como a missa, como a música, como uma dança; se acaba por as considerar em si mesmas, perde o sentido, apenas restam oscilações aborrecidas.
Jean-Paul Sartre, in 'Situações II'
Publicado por pns em abril 23, 2005 12:05 AMNão sei se esta concepção da escrita será generalizável. Parece-me que por detrás disto tudo está uma polémica tão antiga quanto banal: a forma e o conteúdo. Acho que a tese de Sartre é um pouco redutora; (meu Deus, eu a criticar Sartre?!) o estilo, por vezes não é mais do que uma embalagem bonita para um "produto" que pode ser mais ou menos valioso. Poderá um escritor ser brilhante sem uma boa "estória"?
Cardoso, penso que o Sartre respondeu a essa pergunta ao longo do texto, mas essencialmente na primeira e última frase. Quero com isto dizer que não me parece que ele tenha dissociado a "estória" da forma na busca de sucesso da escrita. Apenas tentou fazer relevo da última neste texto em particular, talvez por achar que isso é por vezes menosprezado.
Afixado por: SilentFreak em abril 27, 2005 03:07 AMSim, eu também extrapolei de forma um pouco abusiva...
Afixado por: cardoso em abril 27, 2005 09:31 AM