abril 28, 2005

A Vida é um Hábito

O hábito é o balastro que prende o cão ao seu vómito. Respirar é um hábito. A vida é um hábito. Ou melhor, a vida é uma sucessão de hábitos, porque o indivíduo é uma sucessão de indivíduos [...] «Hábito» é pois o termo genérico para os inúmeros contratos celebrados entre os inúmeros sujeitos que constituem o indivíduo e os seus inúmeros objectos correlativos. Os períodos de transição que separam as consecutivas adaptações [...] representam as zonas perigosas na vida do indivíduo, perigosas, penosas, misteriosas e férteis, em que, por um momento, o tédio de viver é substituído pelo sofrimento de ser.

Samuel Beckett, in 'À Espera de Godot'

Publicado por pns em abril 28, 2005 08:10 PM
Comentários

Estas palavras combinam com esta cara de desequilibrado que o Senhor Samuel nos apresenta!
Vivemos mal e respiramos mal... o hábito é fazer
automaticamente as coisas, achando que "é" a coisa certa! Depois desta simulação, nos queixamos até não poder mais...
Talvez... se estes sujeitos que vivem esperando Godot, tivessem respirado melhor...
comido e dormido melhor... enfim...
Talvez e só então talvez... saísse de suas cabeças, bocas e mãos... algo que não fosse "vômito" ou hábito.

Afixado por: Roberto em abril 30, 2005 07:33 AM

Muito giro esta parada....queria ser um louco como ele!!!

Afixado por: Antropofagia em abril 30, 2005 05:22 PM

Bem pensado. O limiar entre transições é por demais doloroso,onde a crueza do tema pode ser a pergunta: "Estaria eu entrando em outro quadro de hábitos?"...dúvidas,sempre dúvidas....
Para aqueles que desejam enfrentar as dúvidas e correr os devidos riscos,posto aqui um trecho do poema de Edson Marques:

"Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais
importante que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.

Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.

Depois, mude de caminho, ande por outras ruas,
calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.

Tome outros ônibus.

Mude por uns tempos o estilo das roupas.

Dê os seus sapatos velhos.

Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira para passear livremente
na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos
passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.

Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...

Depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv, compre outros jornais...

Leia outros livros, viva outros romances.

Ame a novidade.

Durma mais tarde.

Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.

Corrija a postura.

Coma um pouco menos,

Escolha comidas diferentes,

Novos temperos, novas cores,

Novas delícias.

Tente o novo todo dia.

O novo lado, o novo método, o novo sabor,
o novo jeito, o novo prazer, o novo amor,
a nova vida.

Tente.

Faça novas relações.

Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida compre pão em outra padaria.

Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...

Outra marca de sabonete, outro creme dental...

Tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.

Vá passear em outros lugares.

Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.

Troque de bolsa, de carteira, de malas,
troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios, despertadores.

Abra conta em outro banco.

Vá a outros cinemas, outros cabelereiros,
outros teatros, visite novos museus.

mude.

Lembre-se de que a vida é uma só.

E pense seriamente em arrumar um

Outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.

Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.

Troque novamente.

Mude, de novo.

Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança, o movimento,
o dinamismo, a energia.

Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:

A salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena!!!"

Este "socialista romântico",conforme gosta de se chamar, é por demais revolucionário. Também nem todas as revolução acredito que devemos fazer, e sim aproveitar e ignorar outras para se ter uma exata noção do que é algo ou do que foi o outro. Sem o prolongamento não haverá reflexão ou até desenovolvimento de outros caminhos permissíveis...

Afixado por: Phil em maio 9, 2005 02:44 PM
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