O cigano foi-se confessar; mas o padre, precavido, começou por interrogá-lo sobre os mandamentos de Deus. Ao que o cigano respondeu: «Olhe, senhor padre, eu ia aprender isso, mas depois ouvi um zum-zum de que tinha perdido o valor». (...) Todo o mundo – nações, indivíduos – está desmoralizado. Durante uma temporada, esta desmoralização diverte e até vagamente ilude. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. Os decálogos conservam do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze oseu carácter de pesadume. A etimologia de mandar significa carregar, pôr em alguém algo nas mãos. Quem manda é, sem remissão, quem tem o encargo. Os inferiores do mundo inteiro já estão fartos de que os encarreguem e sobrecarreguem, e aproveitam com ar festivo este tempo de pesados imperativos. Mas a festa dura pouco. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de um certo modo, fica a nossa vida em pura disponibilidade. Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as melhores juventudes do mundo. De puro sentir-se livres, isentas de entraves, sentem-se vazias. Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte. Porque viver é ter que fazer algo determinado – é cumprir um encargo –, e na medida em que iludamos pôr em algo a nossa existência, desocupamos a nossa vida. Dentro em pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta, que subirá, como uivo de cães inumeráveis, até as estrelas, pedindo alguém e algo que mande, que imponha um afazer ou obrigação.
Ortega y Gasset, in 'A Rebelião das Massas'
Publicado por pns em maio 3, 2005 08:30 PMDesculpe a ignorância,mas eu não consegui visualizar do título o texto de Ortega y Gasset.
O que consegui deduzir do texto foi a ausência de um sistema perfeito ou que cubra a idealidade da perfeição que vá direcionar pensamentos e crenças futuras. A questão da ambivalência que nos propõe atualmente, todas com as suas falhas, é por demais confortável,pois perde-se o trajeto ou até o sentido de certas coisas(o pior seria a da vida). Ea sua situação exatamente se desenha quando diz que: "de puro sentir-se livres, isentas de entraves, sentem-se vazias". É a razão do vazio(do nada) que chega para preencher tais falhas e do vazio...é isto ou não existência...
Pns, poderia explicar-me melhor?
De forma a completar o comentário acima, eu resumiria o texto em: Razão e essências do vazio.
Afixado por: Phil em maio 12, 2005 03:31 AMPhil,
Disponibilidade vazia no sentido em que, como por um lado a juventude de hoje tem muito menos obrigações, e maior liberdade, tal não funciona de uma forma positivia, ou seja, têm uma grande disponibilidade mas, por um universo de possibilidades aparentes tão grandes que existem no mundo de hoje, acabam por se perder num mundo de ilusões ou ideais ilusórios, pelo que na verdade sofrem de uma disponibilidade vazia. Ao viverem num mundo irreal, ao não terem obrigações, não chegam à realidade, que é o sustencálo base para, a partir desta, construirem algo de realmente positivo para preencherem a sua disponibilidade, que, embora menor, estará muito melhor referenciada.
Só se faz o impossível a partir do possível, e, sem viver esse possível, a esmagadora maioria das pessoas (à excepção dos génios) perde-se neste mundo de demasiada disponibilidade para a qual os seus seres não se encontram preparados (desde a noit dos tempos, o homem sempre viveu para sobreviver, até há poucos séculos atrás - é algo que não muda em poucas décadas, esse instinto está sempre lá).
pns
Afixado por: pns em maio 12, 2005 09:43 AMAgradeço pela resposta,pns.
Compreendi o seu foco.
Abraços,