Há uma beleza espiritual e há outra beleza que fala aos sentidos. Certas pessoas pretendem que o belo pertence exclusivamente ao campo dos sentidos, separando dele por completo o espiritual, de modo que o nosso mundo apresente uma cisão entre os dois. Nisso também se baseia o ensinamento verídico: «Apenas por dois modos a felicidade é cognoscível em todo o Universo: a que nos vem das alegrias do corpo e a que nos vem da paz redentora do espírito». Desta doutrina, no entanto, segue-se que o espiritual não se acha, para o belo, na mesma relação em que o belo se encontra para com o feio e que, só em certas condições, se confunde com este.
O espiritual não é sinónimo de beleza pelo conhecimento e pelo amor do belo, amor este que se exprime em beleza espiritual. Tal amor, em absoluto, não é absurdo ou sem esperança, pois, pela lei da atracção dos opostos, o belo por sua vez anseia pelo espiritual, admirando-o e recebendo-lhe com agrado a corte. Este mundo não está constituído de tal modo que o espírito esteja fadado a amar apenas o espiritual, nem a beleza unicamente votada a procurar o belo. Na verdade, o próprio contraste entre os dois indica, com clareza ao mesmo tempo espiritual e bela, que a meta do mundo é a união entre o espírito e a beleza, isto é, uma felicidade não mais dividida porém total e consumada.
Thomas Mann, in 'As Cabeças Trocadas'
Publicado por pns em maio 5, 2005 12:05 AMÉ difícil perceber a "beleza" de um espírito.Tudo dependería de um convívio, de uma observação constante da pessoa.Dalí, veríamos o que se prestava(segundo nossas perspectivas e não da óptica universal maniqueísta).E a possibilitação deste convívio viria ou em alguma ocasião de espaços ou através dos traços sensitivos. A visão é a primeira.
Bem, já que o ser humano é um gerador de conceitos, procurando sempre excluir aquilo que não geraria proveito, na busca pelo melhor para si, resta ter inteligência suficiente para se observar a longo prazo. O convívio de largas trocas seria muito mais proveitoso e intenso que a estética visual nada generalizadora a longo prazo. Aliás, príncipes e princesas nasceram de ogros e sapos.
Afixado por: Phil em maio 18, 2005 05:26 AM