maio 13, 2005

O Progresso não se Deve ao Instinto Prático

Precisamos de nos desfazer do actual preconceito que atribui o desenvolvimento da ciência moderna, vista a sua aplicabilidade, a um desejo pragmático de melhorar as condições da vida humana na terra. A história mostra claramente que a moderna tecnologia resultou não da evolução daquelas ferramentas que o homem sempre havia inventado para atenuar o labor e de erigir o artifício humano, mas exclusivamente da busca de conhecimento inútil, inteiramente desprovido de senso prático.
Assim, o relógio, um dos primeiros instrumentos modernos não foi inventado para os fins da vida prática, mas exclusivamente para a finalidade altamente «teórica» de realizar certas experiências com a natureza. É certo que esta intervenção, logo que a sua utilidade prática foi percebida, mudou o ritmo e a própria fisionomia da vida humana; mas isto, do ponto de vista dos inventores, foi um mero acidente.
Se tivéssemos de confiar apenas nos chamados instintos práticos do homem, jamais teria havido qualquer tecnologia digna de nota; e, embora as invenções técnicas hoje existentes tragam em si um dado impulso que, provavelmente, gerará melhoras até um certo ponto, é pouco provável que o nosso mundo condicionado à técnica pudesse sobreviver, e muito menos continuar a desenvolver-se, se conseguíssemos convencer-nos de que o homem é, antes de tudo, uma criatura prática.

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

Publicado por pns em maio 13, 2005 12:05 AM
Comentários

Hannah Arendt é muito boa. O pensamento que aqui exprime está absolutamente correcto. Mas esta ideia (ou outra muito próxima desta) foi mais vivamente exposta naquele:
1- Os homens sensatos adaptam-se ao mundo em que vivem;
2- Os insensatos tentam adaptar a si o mundo;
3- Logo, todo o progresso se deve essencialmente a homens insensatos.

De repente, não me lembro quem escreveu isto.

Afixado por: Funes, o memorioso em maio 13, 2005 12:38 PM

Funes, o teu raciocínio tem toda a lógica. Mas talvez haja algo mais que isso. A ciência é feita por homens. E os homens, quando fazem algo de notável, procuram a afirmação pessoal, perante os outros, perante si próprios e perante o tempo.
Estou convencido que o que move o homem para a criação é a procura da afirmação pessoal e, em última análise, a imortalidade. Sendo assim, as grandes conquistas da humanidade foram conseguidas graças ao egoísmo. Sendo verdade o que dizes (Os insensatos tentam adaptar a si o mundo), penso que os egoístas, mais do que "adaptar", procuram "conquistar" o mundo e o tempo.

Afixado por: cardoso em maio 13, 2005 02:41 PM
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