maio 16, 2005

Ninguém se pode Encarar a si Próprio até ao Fundo

Ninguém pode com isto, ninguém pode encarar-se a si próprio e ver-se até ao fundo. A tua meticulosidade é de ferro, a tua meticulosidade está de tal maneira entranhada no teu ser que sem ela não existes. Pois até a tua meticulosidade se há-de dissolver! E tu sem o hábito não existes, nem tu sem o dever, nem tu sem a consciência. Sem estas palavras a vida não existe para ti, e sem escrúpulos que te resta? O que aí está é temeroso, seres estranhos, seres que, se dão mais um passo, nem eu nem tu podemos encarar com eles. Andam aqui interesses - e outra coisa. Com mil palavras diversas e ignóbeis, mil bocas que te empurram para a infâmia - outra coisa. Tens de confessá-lo. Não é a consciência - não é o remorso - não é o medo. É uma coisa inexplicável e imensa, profunda e imensa, que assiste a este espectáculo sem dizer palavra - e espera... És imundo, és a vida.

Raul Brandão, in 'Húmus'

Publicado por pns em maio 16, 2005 07:45 AM
Comentários

Os textos de Húmus além de representativos no âmbito literário,representam muito a dimensão do trabalho humano com os psiques a que somos postos a considerar como importantes numa análise do comportamento humano. Degusto muito tais áreas,com Dostoeivsky,Foucault e outros autores do século XIX(principalmente) e XX. E este século sem motivação que cativa mais ainda aos questionamentos na busca de um sentido relativo para todo o bojo criador pelo qual a vida nos foi proporcionada. Mas a missão é difícil e cabe toda a nossa trajetória em vida para o resultado sem fim. Enquanto o homem não se der por conta como a loucura é limítrofe as nossas capacidades,ainda existirão ciências que comprovem e reafirmem pequenas áreas do conhecimento,repetindo os valores da ignorância,sem nunca considerar um fim para ela. Quando consideramos o fato, todo cuidado será pouco.

Afixado por: Phil em maio 24, 2005 04:41 AM
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