maio 25, 2005

A Felicidade vem da Monotonia

Em sua essência a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exacta à monotonia da vida. Tornarmo-nos monótonos é tornarmo-nos iguais à vida; é, em suma, viver plenamente. E viver plenamente é ser feliz.
Os ilógicos doentes riem - de mau grado, no fundo - da felicidade burguesa, da monotonia da vida do burguês que vive em regularidade quotidiana e, da mulher dele que se entretém no arranjo da casa e se distrai nas minúcias de cuidar dos filhos e fala dos vizinhos e dos conhecidos. Isto, porém, é que é a felicidade.
Parece, a princípio, que as cousas novas é que devem dar prazer ao espírito; mas as cousas novas são poucas e cada uma delas é nova só uma vez. Depois, a sensibilidade é limitada, e não vibra indefinidamente. Um excesso de cousas novas acabará por cansar, porque não há sensibilidade para acompanhar os estímulos dela.
Conformar-se com a monotonia é achar tudo novo sempre. A visão burguesa da vida é a visão científica; porque, com efeito, tudo é sempre novo, e antes de este hoje nunca houve este hoje.
É claro que ele não diria nada disto. Às minhas observações, limita-se a sorrir; e é o seu sorriso que me traz, pormenorizadas, as considerações que deixo escritas, por meditação dos pósteros.

Fernando Pessoa, in 'Reflexões Pessoais'

Publicado por pns em maio 25, 2005 12:05 AM
Comentários

Perfeito. Acresço que a monotonia é também uma forma de duração.

Afixado por: soledade em maio 25, 2005 01:31 PM

Sinceramente não acredito que todos os espirítos sensíveis sejam ilógicos (absurdos;incoerentes;
contrário à lógica). Pelo contrário é na sensibilidade dos espirítos que se encontra a harmonia perfeita ( que nunca poderá ser desprovida de coerência) pela essência inefável do sentir e ver. Talvez Fernando Pessoa se refira aos« devaneios » como uma pintura de Kadinsky que ao misturar todas as formas e objectos geométricos
perfazia um quadro cheio de assimetrias ou desigualdades que a olho nú não transmitiam nem ordem nem qualidades de sintonia no espaço, dos objectos uns com os outros. Os devaneios são ilógicos mas fazem sentido para o próprio.
Penso ( não sei se estou errada ) que Fernando Pessoa pensava que os espirítos sensíveis estavam desprovidos da parte racional. Por isso para ele amar é não pensar porque se ama, ama-se porque sim, pelas boas sensações, o que leva novamente
ao sentir. Se soubesse de medecina acho que poderia explicar porque é que ele se refere aos outros(os que não pertencem à burguesia, ao que parece neste tempo a classe social é que vai ditar a maneira de pensar)- como os ilógicos doentes. Só sentem quando não pensam ou só pensam quando não sentem!
Porque os burgueses contentam-se em vidas de máximas e eternas monotonias, segundo ele é essa a essência da sua felicidade.
Fernando Pessoa e os seus Heterónimos que se poderia pensar serem todos parte de um todo, de uma só personalidade: Fernando Pessoa. Complicado e simples. Porque todos os seus personagens diferem uns dos outros, o que falta a um encontra-se no outro. Aí reside o seu fascínio, conseguir narrar de forma imaginativa todas as qualidades que um ser humano pode possuir.Levando o interlocutor a pensar e repensar quais as que serão as mais importantes para os seres humanos?
Pois analisa-as em separado,distingue-as e eleva-as ao pedestal. O complectivo dos seres humanos abarcado por Fernando Pessoa.

Afixado por: Luisa Mira em maio 25, 2005 08:53 PM

Acho que Fernando Pessoa constroi este universo de heterônimos mais para suas reflexões pessoais do que para cientificar a mente humana. Talvez porque cada personalidade,cada pessoa e cada nome possui uma característica específica que assim por dizer fecha as portas para as demais. Preferem por assegurar-se em suas casinhas de palha e não era ao limite que Fernando Pessoa gostaria de chegar...

No techo do livro de Pessoa, vemos a visão de um típico homem do tempo,um burguês com suas visões tradicionais de sociedade,com as noções de boa família,boa moral,boa nisto e naquilo.A felicidae deles viria antes disto tudo que da monotonia(penso eu). Sobre esta última, é bem verdade que é feita para fincar raízes na terra e assim gerar frutos,tal qual árvore. Eis a metáfora do cultivador de hortaliças.Escolhe-se primeiro o grau e dele arrisca-se a plantar e assim aguardar muitos e muitos frutos. Dali,viria o sustento e o amor da troca. Se viesse a calhar na mão uma semente dita por muitos como 10x melhor,não eliminaria a outra sementinha da árvore não apenas pela confiança que gerou no tempo,como também pela convivência com o passado. O passado vira substancial(no sentido afetivo até) na escolha que como tal mescla-se ao presente posto que torna-se parte integrante também da sua vida,da sua História. Eliminar o velho pelo novo é também eliminar a memória humana,as lembranças de um passado que mesmo que camuflado jamais tarda a morrer por completo. Por isso sempre digo que a felicidade não é monotonia,mas sim o imperceptível na vivência presente do passado vivido.

Afixado por: Phil em maio 29, 2005 08:39 PM
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