É mais difícil encontrar um gentleman que um génio. A marca mais distintiva de um homem culto é a possibilidade de aceitar um ponto de vista diferente do seu; pôr-se no lugar de outra pessoa e ver a vida e os seus problemas dessa perspectiva diferente. Estar disposto a experimentar uma ideia nova; poder viver nos limites das divergências intelectuais; examinar sem calor os problemas escaldantes do dia; ter simpatia imaginativa, largueza e flexibilidade de espírito, estabilidade e equilíbrio de sentimentos, calma ponderada para decidir - é ter cultura.
(...) A cultura vem da contemplação da natureza; do estudo da Literatura, Arte e Arquitectura com letras grandes; e do conhecimento pessoal das realidades emocionais da existência. É uma escala de valores, ou méritos, diferente da usada nas esferas dominadas pela ciência e pelo comércio. Vivemos numa cultura onde o sucesso é medido pelos bens materiais. É importante alcançar objectivos materiais, mas ainda é mais importante ser-se cidadão amadurecido, bem equilibrado e culto.
A cultura (...) está em nós e não sepultada em estranhas galerias. Significa bondade de espírito e é a base de um bom carácter. A plenitude da vida não vem das coisas exteriores a nós; temos de criar a beleza em que vivemos.
«Embora andemos pelo mundo a procurar a beleza, temos de a levar connosco ou não a encontraremos» - escreveu Emerson. Uma pessoa pode fruir o máximo prazer com paisagens, árvores, bosques, flores e frutos, céu azul, nuvens encasteladas, mares encapelados ou brandas ondas de um lago, vistas da margem de um rio, sombras na relva, estrelas e luar à noite. Para outra a beleza natural não tem encantos. A lua e as árvores brilham em vão; pássaros e insectos, árvores e flores, rio e lago e mar, sol, lua e estrelas não lhe dão qualquer prazer. Quem quer ter uma vida mais rica só tem de compreender e reconhecer todos os tipos de beleza e cultivar o gosto pelo belo dentro da alma.
Alfred Montapert, in 'A Suprema Filosofia do Homem'
Publicado por pns em maio 25, 2005 11:00 PMO gosto experimentado da cultura pelo qual Alfred Montapert menciona,não é este vulgarizado pelos sistemas em massa. A cultura mencionada por ele é aquela de um gentléman no sentido mais alto do seu ser e não daquele que querem que seja. É ser gênio e gentleman ao mesmo tempo,reconhecendo culturas diferentes das suas pelas quais preconceitos são feitos sem o conhecimento mínimo do que possa ser o outro,o estranho e talvez mesmo o "bárbaro". Eis o conflito entre "civilização e barbárie". O bárbaro é o desconhecido que deve ser combatido. Mas note-se que para a denominação um sempre necessitará de um outro para ser tal...
Quando punhas a ler livros de outra natureza,pessoas diversas logo o chamarão de adepto aquilo que lês. Mas será que não podemos ler mais do que aquilo que "somos"? Ler sobre religiões africanas é ser adepto a religião africana? Por que não ler e depois opinar? Está aí talvez a cultura esquecida das massas...