A elegância distinta (...) é difícil de imitar, porque, no fundo, ela é negativa e pressupõe uma prática longa e constante. Pois a pessoa não deve, por exemplo, representar na sua atitude qualquer coisa que indique dignidade, já que dessa maneira se cai facilmente num carácter formal e orgulhoso; antes se deve, simplesmente, evitar o que é indigno, o que é vulgar; a pessoa nunca se deve esquecer, deve prestar sempre atenção a si e aos outros, não perdoar nada a si própria, não fazer aos outros nem de mais, nem de menos, não parecer comovida com nada, não se impressionar com nada, nunca se apressar demasiado, saber dominar-se em qualquer momento e, assim, manter um equilíbrio exterior, por muito forte que seja interiormente o temporal.
O homem nobre pode, em certos momentos, desleixar-se; o homem distinto nunca. Este é como um homem muito bem vestido: não se enconstará em lado nenhum e toda a gente evitará roçar nele. Ele distingue-se dos outros e, todavia, não deve ficar sozinho; pois, tal como em todas as artes e, portanto, também nesta, o mais difícil deve, finalmente, ser executado com facilidade: por isso, a pessoa distinta, apesar de todo o isolamento, deve parecer sempre ligada a outrem; em parte alguma, deve mostrar-se rígida; em todo o lado deve ser polida e aparecer sempre como a primeira, sem nunca se impor como tal.
Vê-se, por conseguinte, que, para parecer distinto, se tem de ser realmente distinto.
Johann Wolfgang von Goethe, in 'Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister'
Publicado por pns em junho 21, 2005 10:00 AME qual seria a finalidade de uma vida tão seca e estéril?
Afixado por: Fausto em junho 22, 2005 12:42 AMSer distinto.
Afixado por: Ramon em junho 22, 2005 09:16 PMGostei do palavriado de Goethe, no que vem a ser distinção.
Ramon,perdoe-me se o compreendi de forma errada, todavia você estaria a chamar as proposições de Goethe "como seca e estéreis?",segundo as palavras do colega comentarista Fausto? Por que?
Bem, a distinção que propõe Goethe é bem 'distinta' por assim dizer daquela a que se tem como significado de "distinção",pois viria com a não distinção, o que foi por sua vez bastante sábio de sua parte em fornecer tal conclusão.
Por que nós vivemos a buscar o perfeito das cousas sem ao menos descobrir o imperfeito? Como 'fingir' ser perfeito e sempre ser 'imperfeito' no que se é dito?
Aí encontramos o falso moralismo em demonstração evidente.
Seria melhor constrangirmos com as nossas derrotas que propriamente buscar suas defesas na construção de um ser falso e superficial,naquilo que mais afasta o real do imaginário:as proposições das mentiras.