Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugira das mãos. Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente.
Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!
Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai-se passando.
Séneca, in 'Cartas a Lucílio'
Publicado por pns em agosto 2, 2005 09:00 AMNos tempos que correm dispôr de tempo cada cada um de nós, "roubar" um pouco de espaço a esse animal voraz que é o Tempo, parece ser um máximo de egoísmo. Egoísmo que devemos cultivar porque, caros amigos, mais egoista do que cada um de nós,é o Tempo que nos rouba até a exaustão tudo o que construímos, tudo aquilo a que nos dedicámos...
Afixado por: cutenosy em agosto 2, 2005 02:42 PMGostei especialmente da referência ao "tempo que nos foi roubado". Nesse ponto, ser egoísta é muito mais vantajoso e até mesmo "construtivo", que ser altruísta. Se pensarmos mais em nós mesmos perderemos menos tempo dando atenção aos outros, envolvendo-nos em seus problemas, etc. Se utilizado em um trabalho importante, esse ganho de tempo nos trará mais prestígio. O homem excessivamente bom e solícito cava sua sepultura de anonimato com pazadas de bondade. E ainda colherá pouca gratidão. Se colher...
Afixado por: Pinheiro Rodrigues em agosto 3, 2005 08:59 PMComo o espaço do comentário é curto, prossigo o que dizia no espaço anterior. Sêneca fala muito na morte, que estaria como que "incubada" em todo o nosso passado. Não sei o que ele diria da mera hipótese de um cidadão se congelar, hoje, no nitrogênio líquido, para eventualmente "acordar" daqui a algumas décadas, prosseguindo sua vida e ganhando nova longevidade, graças à engenharia biomolecular. É o que discuto no romance - "Criônica" - que estou lançando. Gostaria de ver a reação fisionômica do genial filósofo ouvindo tal "absurdo".
Afixado por: Pinheiro Rodrigues em agosto 3, 2005 09:29 PMNão lamento o tempo passado, nem os erros, nem as dores sofridas, lamento e temo o tempo presente vivido no ócio, viver é trabalhar, amar, sorrir e ser feliz. o passado já passou, aproveito a vida com consciência.
Afixado por: Claudio Alves de Oliveira em agosto 4, 2005 05:11 PMNão lamento o tempo passado, nem os erros, nem as dores sofridas, lamento e temo o tempo presente vivido no ócio, viver é trabalhar, amar, sorrir e ser feliz. o passado já passou, aproveito a vida com consciência.
Afixado por: Claudio Alves de Oliveira em agosto 4, 2005 05:11 PMO excerto assim como os comentários foram deveras notórios.A idéia do "tempo roubado" de Sêneca, o egoísmo assim percebido pelo amigo comentarista Francisco na leitura do trecho e a visão do colega Claudio geraram uma mescla de pensamentos.
É decerto que os gregos em sua filosofia da verdade preescrita em raciocínio,muito influenciou uma geração de filósofos inclusive o romano Sêneca,com a noção própria que cada um deles,por mais magníficos que fossem em exuberância humanista, representavam a noção de egoísmo...e assim eram chamados de "verdadeiros homens de seus tempos"....
Monopolizar um tempo? Impossível. Haverá algo sempre a nos atrair seja para a resolução de um problema ou até mesmo para a elaboração de um mesmo,tudo isto envolto em algo que não é conseqüência de um outro...algo que surge...e surge pouco ou quando surge em seqüência surge desanimando e até nos cansando,posto que como máquinas sentimos doer a cabeça e o corpo. Daí volvemos para fomentar estas cores da vida, presente talvez exatamente nas banalidades,que de todo não são tão banais assim,se bem observadas. Talvez degenerem demais o significado da banalidade porque esta não apresenta fundamentos de ação e reação na formação de um sentido para tudo,mas são por assim movimentos sem obrigação e espontâneos também, servindo em grande grande parte como valvúla de escape.
Desta forma, "perder" tempo conversando sobre a vida ou mesmo jogando baralho sem intenções de vitória presenteada é a nós fortificantes,uma vez que ou faz-nos esquecer das obrigatoriedades da vida exigida ou nos resgata a sermos homens de nós mesmos em condições de disperdaçar o tempo da pior ou da melhor forma possível.
Nesta questão, tudo pode ser muito relativo,podendo talvez significar o algo que tanto suaviza a alma e acalma o espírito para novas investidas.