A nossa tristeza faz-nos parecer tudo o que vemos triste; a nossa alegria tudo nos mostra alegre; e o nosso contentamtento tudo nos mostra com agrado; os objectos influem menos em nós, do que nós influímos em nós mesmos. Vemos como de fora as aparências de que o mundo se compõe, por isso não conhecemos o seu verdadeiro ser, nem gozamos delas no estado em que as achamos, mas sim naquele em que elas nos acham. A delícia dos olhos, e do gosto, dependem mais da nossa disposição que da sua eficácia; o mesmo, que ontem nos atraiu hoje nos aborrece; ontem porque estava sem perturbação o nosso ânimo, hoje porque está com desassossego; e tudo porque não somos hoje, o que ontem fomos: o mesmo que hoje nos agrada, amanhã nos desgosta, e os objectos, por serem os mesmos, não causam sempre em nós as mesmas impressões; por motivos diferentes recebemos alterações iguais. O pouco que basta para afligir-nos, ou para contentar-nos, bem mostra o pouco constantes, que são em nós a aflição, e o contentamento; por isso uma, e outra coisa nos deixa com a mesma facilidade com que nos penetra.
Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'
Publicado por pns em agosto 21, 2005 11:00 PMBastante incisivo. O assim chamado "estado de espírito",talvez uma tradição trazida lá do século XIX, nos mostra claramente as diferentes reações perceptível mediantes determinados sensos a que sofremos ou alteramos no passar de situações(sejam através de influências internas ou externas).
Notáveis avanços tem sido realizado nestas áreas peculiares nos dias atuais..quem sabe num futuro próximo estarão assim como os diversos comércios já efetivados na área da genética,na produção genuína do filho,tal qual numa fábrica escolhemos o modelo, estaríamos nós a comprar também sentimentos para todos os prazeres e apenas prazeres...talvez estejamos a cair em grande falácia desde este ponto... a falácia do tédio e da repetição,eis aí uma digna "luta pela mente" nas futuras gerações...