agosto 24, 2005

O Homem Irracional

Cubram-no de todos os bens terrenos, mergulhem-no na felicidade com a cabeça imersa de modo a só umas bolhas rebentarem à superfície; dêem-lhe uma prosperidade económica tal que não tenha mais nada que fazer senão dormir, comer doces e tratar da continuidade ininterrupta da história universal - então ele, o homem, mesmo assim, só por ingratidão, por maldade, far-vos-á uma pulhice qualquer. Arriscará até os doces e desejará propositadamente o mais prejudicial dos absurdos, o mais antieconómico disparate, unicamente para misturar com toda essa sensatez positiva o seu nocivo elemento fantástico. Desejará conservar precisamente os seus sonhos fantásticos, a sua estupidez mais ordinária, unicamente para confirmar a si mesmo (como se fosse assim tão indispensável) que as pessoas continuam a ser pessoas e não teclas de piano em que sejam as próprias leis da natureza a tocar, mas prometendo tocar a tal ponto que se tornará já impossível desejar qualquer coisa para além do calendário.

Mais ainda: mesmo que o homem se tornasse realmente uma tecla de piano, mesmo que tal facto lhe fosse provado por meio das ciências naturais e da matemática, não ganharia juízo, mas faria, de propósito, qualquer coisa contra, apenas por ingratidão; só para continuar na sua! Lançará pelo mundo uma maldição, e como só o homem sabe amaldiçoar (é o privilégio dele, e o que mais o diferencia dos outros animais), e apenas com uma maldição conseguirá o que quer, ou seja, convencer-se-á que é homem e não uma tecla de piano! Se disserem que também isso pode ser calculado pela tábua - o caos, as trevas, a maldição - e que a própria possibilidade de cálculo prévio fará parar tudo, e a razão vencerá - então o homem tornar-se-á louco por essa ocasião, só para não ficar subjugado à razão e poder continuar na sua! Tenho fé nisso, assumo a responsabilidade por isso, porque todo o assunto humano consiste, na realidade, em o homem provar a si mesmo, a cada instante, que é um homem e não um pistão!

Fiodor Dostoievski, in 'Cadernos do Subterrâneo'

Publicado por pns em agosto 24, 2005 12:05 AM
Comentários

Quão profundo tal pensamento...Deve ser por isso que tanto se fala e nada se executa...mas este é o mistério do homem e suas razões estão obscuras por um sensacionalismo frágil,talvez,mas sobretudo pelo critério de seu raciocínio lógico para si,irreal ou absurdo para todos os outros,assim como todas as futuras gerações. O homem muda com todo o espaço ao seu redor,por isso é poderoso(grande manipulador e único 'animal' de polegar) e ignorante em outro extremo. Ele vive no meio,apertado...talvez por isso seja paradoxal...

Afixado por: Phil em agosto 23, 2005 11:54 PM

Em sua loucura desvairada, o insano Dostoievski desnuda os conflitos humanos, escancarando o âmago do homem comum, seu egoismo, egocentrismo e cansativo medo de si mesmo, dilacera a razão que deveria conduzir este ser "racional". Tudo faz para buscar conflito. Tudo faz pa justificar o injustificável de atos falhos motivados pelo desamor pela falta de respeito ao semelhante, pela falta de fé. Falta de fé em si mesmo.
No "terror" de suas tragédias, pude tirar a lição da indispensável lucidez para conduzir minha vida. Pode ser estranho, mas é real.

Afixado por: humberto em agosto 26, 2005 02:13 AM

Concordo.Sobre fins de justificação racionalista para tudo,o homem norteia seu caminho,suas crendices obrigatórias culminando neste chamado 'conflito'.E isto,porque ele necessita deste apoio.Precisa desta fé em algo,deste apego a algum objeto,mesmo que ilusório.Ele necessita disto e isto necessita de dele,uma vez que talvez seja assim que a História do homem progride,seja em caminhos tortuosos,seja em caminhos limpos e retilíneo.isto para fazer a nossa História com dignidade,sem residir nos escombros volimosos que a desorientação dos nossos tempos atuais vem a nos fornecer

Afixado por: Estranho em agosto 29, 2005 02:34 AM
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