Para sobreviver por este mundo afora, é conveniente levar consigo uma grande provisão de precaução e indulgência. Pela primeira seremos protegidos de danos e perdas, pela segunda, de disputas e querelas. Quem tem de viver entre os homens não deve condenar, de maneira incondicionada, individualidade alguma, nem mesmo a pior, a mais mesquinha ou a mais ridícula, pois ela foi definitivamente estabelecida e ofertada pela natureza. Deve-se, antes, tomá-la como algo imutável que, em virtude de um princípio eterno e metafísico, tem de ser como é. Quanto aos casos mais lamentáveis, deve-se pensar: «É preciso que haja também tais tipos no mundo.» Do contrário, comete-se uma injustiça e desafia-se o outro a uma guerra de vida ou morte, já que ninguém pode mudar a sua própria individualidade, isto é, o seu carácter moral, as suas faculdades de conhecimento, o seu temperamento, a sua fisionomia, etc. Ora, se condenarmos o outro em toda a sua essência, então nada lhe restará a não ser combater em nós um inimigo mortal, pois só lhe reconhecemos o direito de existir sob a condição de tornar-se uma pessoa diferente da que invariavelmente é.
Portanto, para vivermos entre os homens, temos de deixar cada um existir como é, aceitando-o na sua individualidade ofertada pela natureza, não importando qual seja. Precisamos apenas de estar atentos para a utilizar de acordo com o permitido pelo seu género e pela sua condição, sem esperar que mude e sem condená-la pura e simplesmente pelo que ela é. Eis o verdadeiro sentido do provérbio: "Viver e deixar viver". A tarefa, contudo, não é tão fácil quanto justa; feliz é quem pode evitar para sempre certas individualidades. Para aprender a suportar os homens, deve-se praticar a própria paciência em relação a objectos inanimados, os quais, em virtude de uma necessidade mecânica ou de qualquer outra necessidade física, resistem tenazmente à nossa acção. Para tal exercício, há oportunidade diária.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Publicado por pns em setembro 13, 2005 09:00 AMSerá possível utilizar num blog alguns excertos ou citações destas traduções? Somente colocá-la, a citação ou um excerto, sem comentários. E colocá-las em cartazes para difundir pensamentos filosofia em alguma escola, seria possível?
Afixado por: Pedro Correia em setembro 14, 2005 04:03 AMAs velhas e sábias lições de Schopenhauer bem merecem o destaque referido no comentário anterior. Quem seguir seus conselhos evitará pelo menos 90% dos dissabores inúteis que nos atormentam nesse mundo de doidos e semi-doidos(aqueles que pensam que a loucura está apenas nos outros). Ser teimoso e competitivo no trânsito, p.ex., é atrair problemas de imensa duração. É melhor "engolir sapo" do que gastar fortunas e insônias com batráquios bem maiores e indigeríveis. Um "valentão" pode dizer que isso é covardia.Mas mudará de idéia depois de umas poucas mas extensas experiências com contendas.
Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em setembro 15, 2005 02:24 PMSchopenhauer foi sábio em acatar UMA das MUITAS formas de avaliação do ser humano...digo muitas e não todas,porque este não teve considerações por visualizar culturas diferentes e tendeu logo a chamar em uma visão simplista de "natureza" um algo muito mais característico de nossa sociedade...
Acredito que o gênero humano por ser racional,repito,age conforme a natureza da razão e não de um individualismo por assim dizer. Vejamos as tribos primitivas,tribos da África,com seus líderes e em diminuto tamanho elas agem sobre condições extremas à caçar em grupo para a sobrevivência de cada um,uma vez que elas têm medo de suas rivais que provocam suas guerras a cada instantes.Movidas por este impulso por "preservar a vida",elas dividem naturalmente lá seus alimentos e a individualidade vira grupal e não individual por si mesma...e é está lógica mística ou real a que cada ser humano mede ou age por sobre suas intenções...Tudo lhe é caractéristico pela cultura e muito mais pela lógica seja esta simples ou de dimensões aidna maiores...daí se pode esperar tudo,menos a sua concretização definitiva como resposta...