O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos vinte anos de idade ele tinha aprendido com James Mill, seu pai, tudo quanto a ciência pode ensinar a um sábio e a um filósofo. E todavia Stuart Mill conta-nos na sua autobiografia que, ao perguntar um dia a si mesmo se seria feliz, uma vez realizadas nas instituições e nas ideias todas as reformas que ele projectava criar, a sua consciência lhe respondera: não. «Senti-me então desfalecer, - diz ele; todas as fundações sobre que se tinha arquitectado a minha vida se desmoronaram de repente.» Mais tarde ele sentiu a dor, sentiu depois o amor, o amor apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submetendo a força dissolvente da análise; e foi só então que ele se sentiu homem, revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe comunicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração palpitante de uma mulher que ele amou - ele o sábio, o filósofo, o reformador frio e implacável - com o amor illimitado, entusiástico, cavalheiresco, que as velhas lendas líricas atribuem aos grandes amantes célebres.
Ramalho Ortigão, in 'As Farpas (1883)'
Publicado por pns em setembro 25, 2005 09:00 PMO termo "mais perfeitamente educado" produz sensaçao de estranhamento. A traduçao nao poderia ter usado um termo como "debilmente educado", se é que eu nao exagero.
Foi educado pelo pai, apartado da interaçao com as crianças de sua idade, adotou na juventude o ponto de vista do pai de forma extremada, sofreu a negligencia educacional dos fatores emocionais e culturais. Teve uma educaçao enfocada puramente no intelecto, tendo como consequencia problemas de saude com a idade mais avançada.
É claro que Mill de forma alguma é regrado somente de debilidades em sua educaçao, porem, do ponto de vista apresentado acima, o título do trecho - "A Plenitude de Realização Humana está Fora da Sabedoria" - nao é convenientemente empregado, misturando tambem de forma falaciosamente sabedoria e conhecimento.
Meu ponto de vista coincide com o do "Carlos" que me antecedeu. O título mais exato seria que a plenitude não está apenas na sabedoria. O homem não é apenas intelecto. Tem necessidades orgânicas e emocionais que vão além do simples se informar sobre o mundo que o cerca. Como Stuart Mill passou boa parte da mocidade apenas estudando, é natural que se sentisse intimamente incompleto,infeliz. Encontrando depois, mais maduro, sua "outra metade", juntou as duas satisfações. Pelo visto, foi um homem feliz, realizado. Agora, não exageremos na avaliação do saber de S. Mill aos vinte anos. Ele nasceu em 1806 e a ciência, àquele época, ainda engatinhava. Vivesse hoje, aos cinquenta não conheceria tudo. Foi um homem de grande valor, moral e intelectual, mas o entusiasmo de Ramalho Ortigão deve ser ajustado às devidas proporções. O lembrete do autor português apenas acentua que o homem, para ser feliz, não pode sacrificar as duas naturezas com que é feito.
Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em setembro 30, 2005 10:34 PMConcordo idem.
O título não foi feliz ao texto...isto é evidente.
E aí está nas falas de Ortigão algumas conotações dadas ao Sr. Mill,uma vez que em algumas releituras do excerto,percebe-se claramente que o autor se inspira e até mesmo se "excita" naquilo que escreve sobre Mill com vivacidade,como se talvez na pele de Mill lá estivesse(ou ao seu lado).