setembro 26, 2005

A Memória é o Maior Tormento do Homem

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade - pois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?

O animal quer também responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas também já esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem também se admira de si mesmo por não poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e rápido que ele corra, a corrente corre junto. É um milagre: o instante em um átimo está aí, em um átimo já passou, antes um nada, depois um nada, retorna entretanto ainda como um fantasma e perturba a tranquilidade de um instante posterior. Incessantemente uma folha se destaca da roldana do tempo, cai e é carregada pelo vento - e, de repente, é trazida de volta ao colo do homem. Então, o homem diz:«eu lembro-me», e inveja o animal que imediatamente esquece e vê todo o instante realmente morrer imerso em névoa e noite e extinguir-se para sempre. Assim, o animal vive a-historicamente: ele passa pelo presente como um número, sem que reste uma estranha quebra.

Friedrich Nietzsche, in 'Segunda Consideração Intempestiva'

Publicado por pns em setembro 26, 2005 09:00 AM
Comentários

Quem diria um Nietzsche com tantos pontos de contacto com Alberto Caeiro! Não me admira - a influência de N.sobre Pessoa é também uma realidade.

Afixado por: amelia em setembro 27, 2005 08:13 AM

Cansa a busca de tanta analogia de pensadores. Afinal, todos pensamos o mesmo num colectivo opressor. Tanta admiração por Nietzsche e no entanto ninguém tem a sua coragem. E os pobres animais ditos irracionais também têm memória e sentimentos. Talvez por isso Nietzsche estava mais lúcido do que nunca quando se abraçou ao cavalo no que dizem ser a sua crise. É que o super homem, talvez na sua nobreza, não seja homem...

Afixado por: lucia melo em setembro 28, 2005 02:00 PM

Desde sempre que o espécie humana crê na sua competência racional, contudo, atrevemo-nos a referir o quão difícil será a actividade congnóscente bem como toda a nossa inteligibilidade argumentativa.
Aliás, a nossa perspectivação da realidade faz-nos adormcer em toda a nossa plenitude.
Este adormecimento provém duma essência que emana da raiva asfixiante que se nos apodera de nós!
Será ue o objectivo primordial será o esquecer-se a si mesmo, ou esquecer do âmago de nós mesmos?
A fruição dos elementos mais sensíveis destruir-nos-á com toda a sua legitimidade existencializante.

Afixado por: philosophicus em setembro 28, 2005 11:42 PM

Nietzsche, não faz vulgo à expressão "memória de elefante": é que o elefante é dos mamíferos, o que possuí o cérebro maior- se não fosse uma formiga ampliada, teria então a formiga um cérebro maior que o elefante ? É mesmo verdade que um elefante é capaz de recordar coisas como onde encontrar água após 50 anos, quando regressa de novo a um lugar onde já tinha estado. Também disso depende a sua sobrevivência...
Depois, as tão "inocentes" e pacíficas criaturas, como gado- bovino?- têm até, surpreendentemente, estruturas sociais mais"complexas" do que se poderia "inocentemente" crer !!!...
Não estou a criticar Nietzsche, na verdade eu gosto muito de Nietzsche e, este excerto monstra a sua linguagem poética, típica, também a sua filosofia se exprime incluindo animais como o leão... Não estou a extrair nenhuma conclusão moral: antes teria de tirar dos que deturparam o seu pensamento( também o de Darwin, por exemplo ); de tal modo que, encontrar-se na posse de alguém livros de Nietzsche, é quase suspeição de que há ligação ao neonazismo...

Afixado por: Sandra Gomes em setembro 29, 2005 12:39 AM

MAS,

quanto a um facto, próprio da natureza humana, (?), de que até posso aceitar com um certo receio justificado: de não ser o homem tão pacífico como o animal,embora, seja, inegavelmente um animal. Por exemplo, a agressividade humana, é própria/ intríseca da/ à natureza humana ?; vi um filme,no qual penso por vezes, "febre alta" (?), que é relatado como "crónica", portanto verídico:um ex combatente americano tem perturbações psíquicas, devido à memória. Ele sabe que teve um período de esquecimento durante um combate: finalmente, recorda algo de como desapareceu todo um/ dois pelotão(ões) - é esta a palavra ?-O Governo, secretamente, contratou um hippie para criar uma droga que tornasse os soldados mais agressivos para o combate - em terra-. Foi criada uma droga que, experimentalmente, foi administrada a chimpanzés em certa quantidade e, observados os efeitos positivos, porque aumentava de facto a agressividade. Depois, uma quantidade muito menor da mesma droga, julgada a necessária, foi administrada aos humanos. Esse era o período de esquecimento: os dois pelotões ficaram tão agressivos, que, ao invés de aplicar a agressividade contra os inimigos: se mataram horrificamente uns aos outros, da maneira mais atroz e inimaginável: arrancando-se até partes do corpo uns aos outros. Tudo isto, em dose muito menor, surtiu nos humanos um efeito devastador , "ampliado" uma série de vezes.
Tendo visto este filme e observado num documentário o pormenor dos horrores que os seres humanos são capazes de se infligir uns aos outros: Bem podem invejar a " pacificidade de alguns animais!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Alguém disse algo como o homem é o animal mais perigoso do jardim zoológico.
Por vezes, fazemos uma notável citação , para não dizer que somos nós que dissemos ou pensamos.
Também a mim, e aos que gostam ou admiram Nietzsche, revolta a maneira como é deturpado.

Afixado por: Sandra Gomes em setembro 29, 2005 01:18 AM
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