Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade - pois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?
O animal quer também responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas também já esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem também se admira de si mesmo por não poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e rápido que ele corra, a corrente corre junto. É um milagre: o instante em um átimo está aí, em um átimo já passou, antes um nada, depois um nada, retorna entretanto ainda como um fantasma e perturba a tranquilidade de um instante posterior. Incessantemente uma folha se destaca da roldana do tempo, cai e é carregada pelo vento - e, de repente, é trazida de volta ao colo do homem. Então, o homem diz:«eu lembro-me», e inveja o animal que imediatamente esquece e vê todo o instante realmente morrer imerso em névoa e noite e extinguir-se para sempre. Assim, o animal vive a-historicamente: ele passa pelo presente como um número, sem que reste uma estranha quebra.
Friedrich Nietzsche, in 'Segunda Consideração Intempestiva'
Quem diria um Nietzsche com tantos pontos de contacto com Alberto Caeiro! Não me admira - a influência de N.sobre Pessoa é também uma realidade.
Afixado por: amelia em setembro 27, 2005 08:13 AMCansa a busca de tanta analogia de pensadores. Afinal, todos pensamos o mesmo num colectivo opressor. Tanta admiração por Nietzsche e no entanto ninguém tem a sua coragem. E os pobres animais ditos irracionais também têm memória e sentimentos. Talvez por isso Nietzsche estava mais lúcido do que nunca quando se abraçou ao cavalo no que dizem ser a sua crise. É que o super homem, talvez na sua nobreza, não seja homem...
Afixado por: lucia melo em setembro 28, 2005 02:00 PMDesde sempre que o espécie humana crê na sua competência racional, contudo, atrevemo-nos a referir o quão difícil será a actividade congnóscente bem como toda a nossa inteligibilidade argumentativa.
Aliás, a nossa perspectivação da realidade faz-nos adormcer em toda a nossa plenitude.
Este adormecimento provém duma essência que emana da raiva asfixiante que se nos apodera de nós!
Será ue o objectivo primordial será o esquecer-se a si mesmo, ou esquecer do âmago de nós mesmos?
A fruição dos elementos mais sensíveis destruir-nos-á com toda a sua legitimidade existencializante.
Nietzsche, não faz vulgo à expressão "memória de elefante": é que o elefante é dos mamíferos, o que possuí o cérebro maior- se não fosse uma formiga ampliada, teria então a formiga um cérebro maior que o elefante ? É mesmo verdade que um elefante é capaz de recordar coisas como onde encontrar água após 50 anos, quando regressa de novo a um lugar onde já tinha estado. Também disso depende a sua sobrevivência...
Depois, as tão "inocentes" e pacíficas criaturas, como gado- bovino?- têm até, surpreendentemente, estruturas sociais mais"complexas" do que se poderia "inocentemente" crer !!!...
Não estou a criticar Nietzsche, na verdade eu gosto muito de Nietzsche e, este excerto monstra a sua linguagem poética, típica, também a sua filosofia se exprime incluindo animais como o leão... Não estou a extrair nenhuma conclusão moral: antes teria de tirar dos que deturparam o seu pensamento( também o de Darwin, por exemplo ); de tal modo que, encontrar-se na posse de alguém livros de Nietzsche, é quase suspeição de que há ligação ao neonazismo...
MAS,
quanto a um facto, próprio da natureza humana, (?), de que até posso aceitar com um certo receio justificado: de não ser o homem tão pacífico como o animal,embora, seja, inegavelmente um animal. Por exemplo, a agressividade humana, é própria/ intríseca da/ à natureza humana ?; vi um filme,no qual penso por vezes, "febre alta" (?), que é relatado como "crónica", portanto verídico:um ex combatente americano tem perturbações psíquicas, devido à memória. Ele sabe que teve um período de esquecimento durante um combate: finalmente, recorda algo de como desapareceu todo um/ dois pelotão(ões) - é esta a palavra ?-O Governo, secretamente, contratou um hippie para criar uma droga que tornasse os soldados mais agressivos para o combate - em terra-. Foi criada uma droga que, experimentalmente, foi administrada a chimpanzés em certa quantidade e, observados os efeitos positivos, porque aumentava de facto a agressividade. Depois, uma quantidade muito menor da mesma droga, julgada a necessária, foi administrada aos humanos. Esse era o período de esquecimento: os dois pelotões ficaram tão agressivos, que, ao invés de aplicar a agressividade contra os inimigos: se mataram horrificamente uns aos outros, da maneira mais atroz e inimaginável: arrancando-se até partes do corpo uns aos outros. Tudo isto, em dose muito menor, surtiu nos humanos um efeito devastador , "ampliado" uma série de vezes.
Tendo visto este filme e observado num documentário o pormenor dos horrores que os seres humanos são capazes de se infligir uns aos outros: Bem podem invejar a " pacificidade de alguns animais!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Alguém disse algo como o homem é o animal mais perigoso do jardim zoológico.
Por vezes, fazemos uma notável citação , para não dizer que somos nós que dissemos ou pensamos.
Também a mim, e aos que gostam ou admiram Nietzsche, revolta a maneira como é deturpado.