O estimarem-se as coisas que não têm valor, é o mesmo que fazê-las estimáveis: o que se busca com ânsia, não é o que se dá, mas o que se nega; o que se permite aborrece, o que se recusa, atrai: o amor não tem seta mais aguda, que aquela que se armou de proibição; no tomar, parece que há mais gentileza, que no aceitar; a dificuldade incita: muitas coisas não têm outro merecimento, que o serem dificultosas; a resistência é o que move a vontade; tudo o que se concede, é sem sabor; a impugnação faz a coisa considerável, porque lhe dá um ar de empresa, e de vitória: os mais altos montes são os que se admiram, só porque custam a subir; a facilidade é aborrecida em tudo; o lustre do argumento vem da contradição.
Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'
Publicado por pns em setembro 24, 2005 11:00 PMO que me espanta é que Matias Aires, nascido em 1705, sabia uma coisa que eu não percebia, trezentos anos depois. Refiro-me à "recusa", a necessidade de dificultar, para se valorizar. Sempre pensei, erroneamente, que todo texto deveria ser redigido de forma bem clara, facilitando a vida do leitor. Um erro. O ingrato dirá que você é "elementar", "sem sutileza", Fica ofendido porque o autor lhe roubou a oportunidade de se pavonear aos próprios olhos, percebendo algo que nem todos perceberam. Quem quiser uma certa fama na escrita deve respingar seu texto com algumas obscuridades puxando para o abstrato. O leitor quer integrar o "grupinho dos inteligentes", não a manada do "zé povão", que precisa tudo explicadinho. No amor também ocorre essa reação. Se você tiver menos de 50 anos e estiver interessado em uma mulher bonita, finja, inicialmente, que nem percebeu a beleza dela. A beldade levará um susto. Ficará intrigada, prestando atenção em você ( "esse idiota está cego, ou o quê?!" ). Quando uma mulher te tratar com exagerada indiferença, fique de olho porque ela também está de olho em você. Está aplicando a "técnica Matias Aires",sem nunca o ter lido. As filhas de Eva, como as aranhas, já nascem sabendo como caçar os insetos. Deixo claro que sei dessas coisa por ouvir dizer, não por experiência própria.
Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em setembro 28, 2005 02:23 AMO QUE ME ESPANTA E NÃO DEVIA ESPANTAR, É O QUANTAS VEZES O COMENTÁRIO É MAIS INTERESANTE DO QUE O EXCERTO DE TEXTO!
Afixado por: Sandra Gomes em setembro 29, 2005 02:04 AMDeveras. No romance de Stendal, "O vermelho e o negro", Julien Sorel,aquele egoísta e orgulhoso,fica exatamente assim quando a senhorita Matilde negava o seu amor sempre quarendo saber o quanto mais o ciúme poderia lhe mostrar amor,de forma mesmo a mostrar o valor daquele sentimento...interessante notar que a romântica Madame de Rênal,muito tímida,veio logo a cair nas garras dele,que logo se mostrou vitorioso e largou aquela mulher apaixonada.
É isso, estão aí algumas provas claras de que muitas vezes,principalmente lidando com sentimentos, são exatamente as dificuldades que vivificam-a...tal qual numa partida de xadrez onde se marca posição e inesperadamente dá-se o avanço sem percebermos...