Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.
Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro'
Publicado por pns em setembro 27, 2005 09:00 AMDe pleno acordo com Borges. Cada livro é um pedaço do cérebro, ou alma, convertidos em palavras. Quando o livro não lhe agradar continue a leitura, assim mesmo, por um pequeno tempo. Não pelo prazer, claro, mas com a curiosidade de um legista à cata de tumores explicativos da doença ou morte do autor. Quando, no passado, eu lia lamentações sobre o incêndio da Biblioteca de Alexandria, eu pensava com meus botões: "Com a ignorância científica daquele tempo, imagino quanta bobagem não estava naqueles pergaminhos". Mas eu estava errado. Nem toda a sabedoria está na ciência. Os textos queimados deveriam conter introspecções, associações de idéias que poderiam nos esclarecer muito sobre a essência do homem. Além disso, retratavam o passado, que na verdade nunca morre totalmente, grudado que fica nas gerações, para o bem e para o mal. O único problema sério com os livros está onde guardá-los. Um ex-campeão de xadrez de N. Iorque dizia que "o homem é único animal que compra mais livro do que pode ler", opinião apludida de pé por muitas esposas admiradoras de coisas "mais práticas". Essas só respeitam os livros quando atrás deles vem o dinheiro.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em setembro 28, 2005 09:24 PM...Em pleno desacordo com o autor estou eu quando ele diz que a biblioteca de Alexandria é a memória da humanidade; para mim era o apanágio de um coleccionador, ou ambicioso, de certo modo,que mandava confiscar todos os livros e documentos que entrassem na cidade, substituindo-os, também comicamente, por cópias que davam às pessoas de quem os tiravam.
Em História, diz-se que o tempo histórico finge que corta o tempo, ora, num livro como a História da humanidade, que diz que na realidade se o tempo da pré-história fosse contado como as 24 horas de um dia, ocupava quase todas as horas do dia e a história só aparecia nos últimos minutos. Depois, a humanidade vai inventado novas formas ao longo do tempo.....
Tanto quanto sei, discordo plenamente !!!!!!!!
A função que o livro realiza; talvez a de uma criança que começa a fazer os seus primeiros desenhos, assim como rabiscos, depois girinos.... ????!!!!!!
Afixado por: Sandra Gomes em setembro 29, 2005 01:55 AMPara fazer um comentário sarcástico: este Sr. Borges não gostava certamente de ser "zarolho", ou "maneta"...
Afixado por: Sandra Gomes em setembro 30, 2005 10:21 PMCara Sandra,
Creio que se considerarmos que existe um critério de verdade nesta biblioteca,por decerto estaríamos errando...primeiro porque o livro tal como Borges descreve,representa também os sonhos e pensamentos até de uma dada cabeça,influenciada pela sociedade ou cultura que a formou...sendo assim, principalmente antes do advento do pensamento filosófico grego, poderíamos acreditar em conceitos de culturas,sobre tecnologias ou sobre informações técnicas de outros povos...seria apenas um olhar da região ao qual se encontra a biblioteca,região que teve diversos povos e diversas civilizações sobre quais foram suas representações e tal...não deixa de ser um dado de "memória para a humanidade"(a questão dos conceitos é sempre aquela do autor e não dos "outros").Neste caso,então, existem humanidades,vistos sob diferentes prismas.
A visão de um livro de Borges mais o acréscimo tido pelo comentarista Francisco,fez um fecho bem interessante sobre a questão do que é ou sobre o impacto do livro no indivíduo e sociedade.