outubro 14, 2005

Presente Nulo

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.

Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'

Publicado por pns em outubro 14, 2005 12:05 AM
Comentários

Ao deter-me perante esta reflexão, tentei descobrir se isto acontece com todas as pessoas ou se o escritor, Jorge Luís Borges, está a ser deveras generoso e caridoso com aqueles que criativamente pintam e adornam a própria realidade, como forma de transmutação da dor para parte incerta, quer seja para o passado, quer seja para o futuro ou para o espaço!
Pois que tenho quase a certeza de que só se pode ter o desejo de ignorar o presente se este não nos é favorável e nos provoca dor e mau estar, por diversos motivos. Ou de forma analítica, mesmo que o presente seja quase perfeito para nós, nunca o conseguimos interiorizar de forma inteira? Talvez porque as lembranças de coisas que foram deveras boas, (como a juventude) e das quais florescem novas esperanças de que no futuro também poderão acontecer coisas que nos trarão alegrias e momentos de felicidade. Dessa forma ofusco o presente e sem querer o meu presente será a maravilhosa mitigação do "verdadeiro".
Bastaria ser um mestre artístico no auge da criatividade e não seria necessário dividir o tempo, o tempo seria uníssono de beleza e poesia!

Afixado por: Luisa Mira em outubro 17, 2005 07:38 PM

Concordo com tua opinião Luisa Mira. O tempo pode ser selecionado sim,conforme nossas vontades...mas creio que quando ele referiu-se a presente nulo não foi por tristeza ou insatisfação.Talvez Luís Borges tenha focado o ponto de que o presente é sempre passado se for plenamente contado e é um futuro se for sonhado,ou seja, real(passado) vs fictício(futuro).

"O tempo está sempre a correr e parece que corre mais rápido que nós todos. Eis aqui a maratona da vida, num presente já passado."

Afixado por: Phil em outubro 19, 2005 02:55 AM
Site Meter