O nosso engenho todo se esforça em pôr as coisas numa perspectiva tal, que vistas de um certo modo, fiquem a parecer o que nós queremos que elas sejam, e não o que elas são. A razão é como um instrumento lisonjeiro, por meio do qual vemos as coisas, grandes, ou pequenas, falsas, ou verdadeiras. O nosso pensamento não se acomoda às coisas, acomoda-se ao nosso gosto. O amor, a vaidade, e o interesse são os moldes em que as coisas se formam, e se configuram para se apresentarem a nós; e com efeito nenhuma coisa se nos mostra como é, contra a nossa vontade.
Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'
Publicado por pns em outubro 1, 2005 11:00 PMPela amostragem, Matias Aires, prata da casa, nada fica a dever, em penetração, ao gênio francês, La Rochefoucauld. Realmente, vemos e "constatamos" apenas aquilo que nos interessa ver. Para o que não no agrada, somos atacados de estranha cegueira. Mocinhas apaixonadas por facilmente perceptíveis pilantras vêem nos seus amados ( leia-se com mais propriedade "desejados")apenas o "lado bom" deles ( 3%, digamos). Seu amado é apenas incompreendido. Falei em mocinhas? Velhotes e velhotas também são acometidos dessa cegueira sentimental e sexual. Mas, por favor, podemos passar para esferas mais altas? Podemos, só que aí é a mesma coisa. A catarata emocional é seletiva, só ataca a sua paixão, seja de que natureza for, carnal ou espiritual. Desaparece, a visão fica límpida de repente, quando examina situações alheias. Cientista atrás de dinheiro ou de Premio Nobel também só constata nas suas experiências aquilo que reforça sua acariciada intuição,que lhe parecia uma descoberta capaz de jogá-lo ao pináculo da fama. E em política, religião e futebo, nem nos fale! Cada um vê o que lhe agrada. Quanto à "desprezível" realidade, "Vade retro, Satanás!"
Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em outubro 4, 2005 03:25 PM