As qualidades puramente sociais que governam os homens são o egoísmo, a socialidade e a vaidade. Por socialidade entendo o instinto gregário; é ela que ameniza e limita, sem nunca o eliminar nem essencialmente o alterar, o egoísmo, qualidade primária, que se deriva da própria circunstância de haver um ego. A vaidade é a consequência do egoísmo na sua limitação pela sociedade; é a qualidade social humana mais evidente. Todo o homem quer ser mais que outro, todo o homem quer brilhar. Variam, com as índoles e as aptidões, as maneiras em que o homem quer destacar-se, mas cada um tem a sua vaidade.
Seria impossível a existência da sociedade se nela se não reproduzissem estes fenómenos da vida do indivíduo. Por isso a sociedade se divide em nações, e não é possível «humanidade» em matéria social. Assim como tem que haver um egoísmo individual, tem que haver um egoísmo colectivo - é o que se chama o instinto patriótico. Assim como há uma vaidade individual - tem que haver uma vaidade colectiva - é o que se chama imperalismo.
Fernando Pessoa, in 'Textos Filosóficos - 1915'
Publicado por pns em outubro 9, 2005 08:00 PMAssino em baixo, tudo o que disse Fernando Pessoa. Mas vou além: o egoísmo e a vaidade são grandes molas propulsoras na formação da riqueza, tanto individual quanto coletiva, isto é, de todos os países. E a riqueza gera a força, todos os tipos de força, inclusive a cultural. Daí o desmoronamento do mundo socialista, baseado apenas no ideal (otimista demais) da solidariedade humana. Como o homem, por natureza, não é preponderantemente solidário, os países socialistas não cresceram, comparativamente,tanto quanto os países capitalistas, que liberaram o esforço e inventividade dos livres empreendedores. Mesmo movidos estes pelo egoísmo e vaidade, geravam uma riqueza que tinham que dividir com os interesses gerais, via tributos. É um paradoxo que o egoísmo gere algo de bom, mas essa é a realidade. Não fosse a vaidade, não teríamos competidores participando de Olimpíadas, ou cientistas buscando o Prêmio Nobel,tentando descobrir o que ninguém havia descoberto antes. O socialismo foi derrotado pelo capitalismo porque este compreendeu melhor a força propulsora, útil, da liberdade de iniciativa e do "egoísmo" na produção da riqueza e tudo o mais que dela deriva. Mas o socialismo também é necessário para a felicidade do homem. Do contrário, a vida se transforma numa corrida de ratos ambiciosos, cada um puxando o tapete do outro. Daí a necessidade da unificação de ambos os sistemas: capitalismo (no que se refere à liberação da livre iniciativa, e direito à propriedade privada) e o socialismo (no amparo aos que, por uma razão ou outra, não conseguiram "vencer", segundo os estreitos padrões de uma uma vida pensada apenas em termos de dinheiro). Em uma frase-resumo, diríamos que o barco ideal é aquele movido por um forte motor capitalista, com leme governamental controlado por um socialista, pelo menos no coração atento ao sofrimento alheio. Quem se interessar pelo tema da unificação dos dois sistemas, leia, por favor, meu artigo "Inevitabilidade e necessidade de um governo mundial", na Revista do Instituto dos Advogados de São Paulo, vol.13, janeiro-junho de 2004, pág.70/89. Se isso for difícil, posso remeter cópia por e-mail. Gratuitamente, claro.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em outubro 11, 2005 03:09 PMConcordo em número,gênero e grau contigo Francisco. Pessoa foi genial ao proferir isso(algo que nunca tinha parado para pensar,mas que faz todo sentido,tendo-se uma visão micro de que se há riqueza nacional,há industriais produzindo e se produzem quer alimentar sua ambição,seu orgulho sem a qual as suas vidas ficariam não muito construtivas a cada um...mas veja...é preciso ter um limite para tudo...sua colocação quanto aos socialistas foi exímio,até na comparação com o barquinho e os remadores...mas a obra mais evidente que inclusive creio que todos deveriam ler para refletir não apenas uma mais inúmeras vezes,em se tratando desta problemática, é a de Leon Tostoi:"A terra que precisa um homem"...caso alguém queira ler o pequeno conto(acredito que são apenas 10 páginas) deste grande e eterno escritor,entre no site: www.cultvox.com.br/ e por lá poderão achar nos e-books gratuitos o livro de que vos falo.
Afixado por: Phil em outubro 12, 2005 06:29 AMPrimeiramente: a solidariedade, dita socialismo, ou outro nome, não é só um ideal: é uma característica intrisecamente humana, e não só humana... Mas, todos os "desabafos" são pertinentes, é claro.Se o "egoísmo" é necessário, fará a solidariedade ? Onde o "egoismo" é mais necessário para mim é num bébé que tem necessáriamente de formar um ego.
Achei tão "engraçado" o primeiro comentário, como as próprias "graçolas" de Fernando Pessoa:Isto é: não é fácil encontrar um passatempo acertado ao gosto, confesso...
Aos dois comentadores agradeço as sugestões de leitura.
Ao primeiro comentador: O meu e-mail está indicado,(mcgmelo@hotmail.com.pt), caso a boa vontade seja suficiente para enviar o prometido artigo da revista.
Ainda, continuação:
E,a contrario, até se torna engraçado, porque alguns projectos de cibernética têm como base a suposição da quase "inexistência" de ego no homem: para poder torná-lo, em parte biológico, em parte máquina. Isto foi tão chocante para mim, que até arrepios causou...-( ao ver um documentário na tv).
Afixado por: Sandra Gomes em outubro 15, 2005 11:28 PM