outubro 08, 2005

É Mais Fácil Sustentar uma Opinião Má, do que Escolher uma Boa

logb5.jpgÉ mais fácil sustentar uma opinião má, do que escolher uma boa; porque o erro é como um edifício, cuja fábrica exterior é composta de uma infinidade de ângulos; com algum destes encontra-se o pensamento facilmente, porque são muitos, ao passo que o acerto é como um ponto fixo no meio de uma esfera; o pensamento que anda vagando à roda, não vê o ponto, porque este é só um; do mesmo corpo nasce a sombra que o encobre: são inumeráveis as linhas, que se podem lançar de uma circunferência para um centro comum; alguma linha há-de ver-se, porque são muitas, e o centro não, porque é único: a superfície do globo impede o poder ver-se a sua concavidade; ou se há-de ver uma coisa, ou outra; ambas ao mesmo tempo não pode ser.

Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'

Publicado por pns em outubro 8, 2005 11:00 PM
Comentários

No pensamento de M. Aires, eu substituiria a expressão "fábrica exterior" pela "aparência exterior". E nosso filósofo está coberto de razão. É impressionante como a humanidade, mesmo alfabetizada, se deixa ofuscar e desviar pelos penduricalhos intelectuais que desviam a atenção para o secundário. Daí, o imenso poder da imprensa. Quem controla a mídia controla o pensamento do país onde ela prepondera. Uma grande massa de artigos e notícias deixa o leitor médio tão desnorteado que ele acaba sendo vítima da quantidade de informações. Lê, vê na televisão, ou escuta no rádio um fragmento (convincente) de informação e supõe que o todo é igual, tão certo quanto aquele fragmento. O fragmento pode estar certo, mas o todo, não. O problema não é tanto a falta de "pontaria", de discernimento da população. É mais a falta de tempo ( e gosto) para ler ( e as vezes, reler) tudo, digerir, e perceber onde está o origem do problema. Já senti isso quando, no Brasil, propus uma modificação na legislação processual, que não vou históriar aqui por não ser lugar adequado. A questão da dispersão da atenção no exame de assuntos complexos tem relação também com a parte instintiva. Se quem propõe uma determinada solução para um problema - que pode ser visto de vários ângulos - precisa, antes de tudo, "agradar" os examinadores da idéia. Sem isso, nada feito.O cidadão, "a besta", pode ter razões de sobra, provar que tem, mas se por alguma razão, contrariar o interesse do leitor, sua idéia (o centro verdadeiro)jamais será adotada. Seus opositores sempre conseguirão arranjar argumentos extraídos da "fábrica exterior" para provar que ele não tem razão. Na verdade, é a "cara dele" que não tem razão. Só "vemos" aquilo que nos agrada ver. Nesse ponto, Freud nos prestou um serviço.

Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em outubro 11, 2005 02:06 PM

Bela abordagem tanto a de Matias(clássica),quanto a de Francisco(contemporânea). Este trabalha melhor ainda a questão do foco que é a verdade,coisa que Matias Aires não conseguiria ver ainda naquele tempo.
No século XIX percebemos através de seus filósofos inúmeros que a verdade, por si só, é a avalição que um ser humano faz do mundo. Sendo assim podemos classificá-la em dois tipos:aquela interiorana,cujas idéias e critérios são plenamente assegurados segundo interpretação própria e tem as induzidas(ou externas),onde através de inúmeras estratégias,conseguem ludibriar a mente,traindo-a sem que se note.
No fundo, a verdade, por hoje, paira no ar de quem a secciona de um todo muito mais amplo e talvez muito além de nossas habilidades...

Afixado por: Phil em outubro 12, 2005 06:03 AM

Como forma de rapidamente complementar o que havia dito anteriormente,digo que de lá para cá junto com a verdade foi-se também o moralismo tradicionalista e os juízos de julgamento entre o bom e o mau(embora lá a igreja destruída por Nietzsche,tenha lá conseguido erguer-se de outras maneiras,reestabelendo tais destruições,o que significa muito pouco diante daquilo que um dia foi, plenamente pautada na ignorância) instaurando um regime de liberdade tamanho que apenas com a alienação social e privação de direitos conseguiu-se que,de certa forma, a lei e a ordem fosse estabelecida(Creio que destes tempos em diante talvez as leis e a mídia irão degladiar-se na forma de manter a sociedade como ela é,calada e em pleno desenvolvimento...mas parece que a mídia-poder das imagens,panopticon,segundo Foucault- poderá um dia ultrapassar as leis,uma vez que ficou comprovado que a informação e sua massificação vai além do insconsciente das pessoas que muitas vezes cumprem sem perceber).

Afixado por: Phil em outubro 12, 2005 06:15 AM
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