outubro 15, 2005

O Último Grau de Perfeição Costuma Ser o Primeiro na Ordem da Corrupção

logb5.jpgOs que crêem que sabem mais que os outros, ou se enganam, ou se persuadem bem: se se enganam, o mesmo engano lhes serve de ludíbrio; se se persuadem bem, a vaidade da ciência os faz tão ferozes, e severos, que ficam sendo insuportáveis. A ciência humana comummente se reveste de um ar intratável; imagem tosca, desagradável, e impolida. A especulação traz consigo um semblante distraído, e desprezador; quanto melhor é uma ignorância educada. Toda a ciência se corrompe no homem; porque este é como um vaso de iniquidade, que tudo o que passa por ele, fica inficionado: as coisas trabalham por se acomodarem ao lugar donde estão, e por tomarem dele as propriedades, só com a diferença, de que as cousas boas fazem-se más, porém estas não se fazem boas. Nas sociedades, o mal é mais comunicável; a perdição é mais natural; o que é bom, mais depressa tende a perder-se, que a melhorar-se; os frutos da terra quando chegam ao estado de maturidade, nem persistem nele, nem retrocedem para o estado de verdura; antes caminham até que totalmente se arruinem; por isso o último grau de perfeição, costuma ser o primeiro na ordem da corrupção.

Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'

Publicado por pns em outubro 15, 2005 02:53 PM
Comentários

Não esquecer que M. Aires nasceu em 1705, quando a "Ciência" era um arremedo de ciência e só servia para conferir uma falsa "importância" a quem passava por "sábio". Basta dizer que, à época, que pensava-se e sentia-se com o coração ( o músculo cardíaco) pois este se acelerava com as emoções sentidas pelo seu portador. Hoje, de modo geral, os grandes cientistas são pessoas modestas, cientes de que "nada sabem" ( mesmo porque temem ficar desprestigiados de uma hora para outra se sua pretensa descoberta ficar meio desmoralizada por descoberta mais recente). Agora, que o "vaso ruim" ( o homem) "infecciona" o conteúdo, isso ainda pode acontecer, quando interesses vários "contaminam" a verdade científica. Por volta de 1932 um grupo de médicos americanos quis saber como evoluia a sífilis nos pacientes que não se tratavam. Selecionaram algumas dezenas de pobres sifilíticos, a maioria negros, para acompanhamento, mas sem informar a tais pacientes que eram portadores da moléstia. Queriam saber como o organismo reagia à doença, indiferentes às terríveis consequências de cegueira, loucura, e outros distúrbios, transmissíveis à prole. Somente no governo Clinton é que este pediu desculpas, solenemente, em nome de seu país, aos sobreviventes e descendentes das cobaias humanas. Uma mancha que, espera-se, não ocorrerá novamente. Em suma, atualizando o pensamento de Matias Aires, permanece a sua advertência de que a soberba deve ser sempre afastada na área da ciência. Mesmo porque qualquer época, mesmo a mais esclarecida, não passa de trevas, se comparada com a Ciência de alguns séculos à frente.

Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em outubro 16, 2005 10:18 PM

Bem...depois deste excerto agora compreendo mais o por quê da Igreja Católica ter aprovado a publicação desta obra naquele tempo...
Ele curva a ciência de tal modo a dizer que é ela que corrompe o homem.De que através dela surgiria a arrogância e o orgulho(a vaidade por assim dizer). Por isso, segundo ele o primeiro grau de ciência é melhor situada que o último,esta já desenvolvido e "corrompedora de cabeças".

Francisco, creio que é exatamente disto(a do pensar com o coração) de que Matias comenta sobre,mas discordo da sua visão de que os grandes cientistas atuais são pessoas modestas...talvez eles fossem diferentes sim,justamente porque pensam menos com o coração e mais com a razão(daí o critério da ciência que denegre a imagem do homem). Decerto, os verdadeiros cientistas desde aquele tempo eram aqueles que foram muito desprezados pelos "inquisitores" dos Gabinetes Ministeriais sobre Ciências...e isto caminha, por infelicidade, até os dias atuais.
Seu exemplo foi excelente numa versão mais atualizada(e impactuosa) do que Matias escreveu.
No fundo, não sabemos ao certo o que podemos fazer, o que estamos a fazer conosco ou que conivência culposa é exercida sobre nós...

Afixado por: Phil em outubro 19, 2005 02:53 PM
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