A racionalidade pode ser definida como o hábito de considerar todos os nossos desejos relevantes, e não apenas aquele que sucede ser o mais forte no momento. (...) A racionalidade completa é, sem dúvida, ideal inatingível; porém, enquanto continuarmos a classificar alguns homens como lunáticos, é claro que achamos uns mais racionais que outros. Acredito que todo o progresso sólido no mundo consiste de um aumento de racionalidade, tanto prática como teórica. Pregar uma moralidade altruística parece-me um tanto inútil, porque só falará aos que já têm desejos altruísticos. Mas pregar racionalidade é um tanto diferente, porque ela nos ajuda, de modo geral, a satisfazer os nossos próprios desejos, quaisquer que sejam. O homem é racional na proporção em que a sua inteligência orienta e controla os seus desejos.
Acredito que o controle dos nossos actos pela inteligência é, afinal, o que mais importa e a única coisa capaz de preservar a possibilidade de vida social, enquanto a ciência expande os meios de que dispomos para nos ferir e destruir. O ensino, a imprensa, a política, a religião - numa palavra, todas as grandes forças do mundo - estão actualmente do lado da irracionalidade; estão nas mãos dos homens que lisonjeiam Populus Rex com o fito de desencaminhá-lo. O remédio não está em nada heróico nem cataclísmico, mas nos esforços dos indivíduos no sentido de uma opinião mais sadia e equilibrada das nossas relações com o próximo e a sociedade. É à inteligência, cada vez mais divulgada, que devemos recorrer para a solução dos males de que sofre o nosso mundo.
Bertrand Russell, in 'Ensaios Cépticos: Os Homens Podem Ser Racionais?'
Publicado por pns em outubro 26, 2005 09:00 AMO Homem é um todo composto de razão e sentimento, pois que os dois substantivos abstractos dissolutos um do outro não fazem sentido.O ser humano tornar-se-ía em alguém bastante insípido, como olhar para uma obra de arte que apela ao sentido da visão, cores com tons chamativos à sensibilidade do olhar, mas com traços rectos, todos iguais e todos na mesma direcção;sem qualquer diversidade ou imaginação.Era apenas uma obra incompleta, muito incompreensível, só porque nada significava após ser exaustivamente observada.
Acredito com fervor que a racionalidade é o equilíbrio dos pratos da balança, por isso representa a bandeira da justiça! Mas esta sem o acto de sentir é iletrada para compreender esses seres complexos e imperfeitos que são os seres humanos.
Mas Bertand Russel dá uma imagem forte da racionalidade como uma espécie de refreamento(reprimir,moderar,dominar,conter)dos desejos que como sabemos são oriundos dos sentimentos e que esta pode ser uma salvação para muitos males do mundo. Um mundo cheio de atrocidades em que a racionalidade não existe e se transfigura em ideias falsas para se justificar o incompreensível e o inaceitável.
Tudo o que seria necessário dizer sobre a racionalidade seria ler-lhe o significado que é a simplicidade de discernir o Bem do Mal!
Concordo com o Bernard Russel e contigo,Luisa Mira. A irracionalidade presente está ligada diretamente ao poder do capital,recurso imediato do desejo.Pensa-se então em curto prazo,numa dinâmica rápida e acelerada,num mundo de imagens.
Fico a pensar no dia em que essa rapidez desumanizadora,talvez pertinente ao significado de crescimento da civilização (?), comece já a deslanchar para o desafroxar das visões provindas com a racionalidade e imaginação.Por isso o motivo de tanta diversidade em lazer e tão pouco aproveitamento do mesmo(há um empobrecimento na arte de se pensar)...no fundo é uma carata que estamos a nós mesmos a colocar constantemente em ambos os olhos...