Ninguém pode ver acima de si. Com isso quero dizer: cada pessoa vê em outra apenas o tanto que ela mesma é, ou seja, só pode concebê-la e compreendê-la conforme a medida da sua própria inteligência. Se esta for de tipo inferior, então todos os dons intelectuais, mesmo os maiores, não lhe causarão nenhuma impressão, e ela perceberá no possuidor desses grandes dons apenas os elementos inferiores da individualidade dela própria, isto é, todas as suas fraquezas, os seus defeitos de temperamento e carácter. Eis os ingredientes que, para ela, compõem o homem eminente, cujas capacidades intelectuais elevadas lhe são tão pouco existentes, quanto as cores para os cegos. De facto, todos os espíritos são invisíveis para os que não o possuem, e toda a avaliação é um produto do que é avaliado pela esfera cognitiva de quem avalia.
Disso resulta que nos colocamos ao mesmo nível do nosso interlocutor, pois tudo o que temos em excedência desaparece, e até mesmo a auto-abnegação exigida em tal atitude permanece irreconhecida por completo. Ora, se considerarmos o quanto a maioria dos homens é de mentalidade e inteligência inferiores, portanto, o quanto é comum, veremos que não é possível falar com ele sem, nesse ínterim, tornarmo-nos comuns (em analogia com o fenómeno da distribuição eléctrica). Compreenderemos, então, a fundo, o sentido próprio e acertado da expressão «vulgarizar-se» e procuraremos de bom grado evitar toda a companhia com a qual só podemos comunicar por intermédio da parte ignominiosa da sua natureza.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Publicado por pns em novembro 9, 2005 09:00 AMSchopenhauer tocou já naquele tempo o estigma do que é a cultura,ou seja, tudo aquilo que é resultado da parte externa(meio) e da parte interna(ser). Lembro de ter lido algo de Roberto da Matta(se não me falha a memória),dizendo que se Albert Einstein ou Mozart tivesse nascido em uma tribo distante,longe de qualquer costume ocidental ou mesmo em período da História, certamente ele não teria sido o Albert Einstein ou o Mozart que conhecemos. De fato, eles usariam toda as suas habilidades em outros objetos,tendo em vista outros objetivos,uma vez que aquela sociedade não comporta aquele desenvolvimento ao qual ficamos conhecendo e naturalizamos.
Mas fiquei intrigado quando o senso de Schopenhauer diz que se houverem dois seres humanos,ambos por amor-próprio estigmatizará o outro,reduzindo-o de uma forma ou outra(por mais simpático ou sábios que sejam). Reduzir-se ao comum,ao comunicável.A competição é uam cosntante(tendo em vista as mesmas áreas a serem trilhadas). Aliás, tal qual Schopenhauer,cada um de nós sente-se superior ao outro,tendo mais verdades que outrem. E quanto maior forem as certezas,maior o nosso conforto, e possivelmente maior o nosso choque, quando os diversos fatos da vida nos forem inseririndo gradualmente em certas situações que mereçam reflexões.
Afixado por: Phil em novembro 21, 2005 04:33 PM