novembro 17, 2005

Entendimento Influenciado pela Vontade

logb5.jpgNa ciência de julgar, alguma vez é desculpável o erro do entendimento, o da vontade nunca; como se o entender mal não fosse crime, erro sim; ou como se houvesse uma grande diferença entre o erro, e o crime: o entendimento pode errar, porém só a vontade pode delinquir. Assim se desculpam comummente os julgadores, mas é porque não vêem, que o que dizem que procedeu do entendimento, se bem se ponderar, procedeu unicamente da vontade. É um parto suposto, cuja origem, não é aquela que se dá. Querem os sábios enobrecer o erro, com o fazer vir do entendimento, e com lhe encobrir o vício que trouxe da vontade; mas quem é que deixa de ver, que o nosso entendimento quási sempre se sujeita ao que nós queremos; e que o seu maior empenho, é servir à nossa inclinação; por isso raras vezes se opõe, e o mais em que se ocupa, é em conformar-se de tal sorte ao nosso gosto, que ainda a nós mesmos fique parecendo, que foi resolução do entendimento aquilo que não foi senão acto da vontade.

O entendimento é a parte que temos em nós mais lisonjeira; daqui vem que nem sempre segue a razão, e a justiça, a inclinação sim; inclinamo-nos por vontade, e não por juízo; por amor, e não por inteligência; por eleição do gosto, e não por arbítrio do juízo: as paixões que nos movem, nos inclinam; a todas conhecemos, isto é, sabemos que amamos por amor, que aborrecemos por ódio, que buscamos por interesse, e que desejamos por ambição; mas não sabemos sempre, que também a vaidade nos faz amar, aborrecer, desejar, buscar; daqui vem que o julgador se engana, quando se presume justo, só porque não acha em si, nem amor, nem ódio, nem ambição, nem interesse; mas não vê, que é vaidoso, e que a vaidade basta para o fazer injusto, cruel, tirano. Não vê, que se não tem amor a outrem, tem-no a si; que se não tem ódio ao litigante humilde, tem-no ao poderoso, só porque na opressão deste quer fundar a sua fama; não vê, que se não tem interesse de alguns bens, tem interesse de algum nome; e se não tem ambição das honras, tem ambição da glória de as desprezar; e finalmente não vê, que se lhe falta o desejo da fortuna, sobra-lhe o desejo da reputação. Que mais é necessário para perverter um julgador?

Matias Aires, in 'Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna'

Publicado por pns em novembro 17, 2005 11:00 PM
Comentários

Sábias palavras...mas acredito que um tanto exageradas...não sei. Entendo que grande parte do que executamos ao longo do dia é por prazer,por vontade(embora lá com o capitalismo viemos realizando menos em liberdade e até qualidade,ou seja,segundo ordens e vontades de outros!),mas generalizar todas as atitudes humanas em vontade,tal qual os erros,creio ser um erro pensar assim. Por acaso alguém joga para perder? A vontade é sempre do vencer, e é no seu resulatado que a opinião se formula,mas só de vontade um homem não pode viver em todas as ocasiões.É necessário antes disso,mostrar todas as suas qualidades para esta vontade...se for no jogo,precisaria de sorte;se for no meio acadêmico,compreensão do desenvolvimento do pensamento do professional(professor);dentre outras. O entendimento acerca destas questões é necessária antes da vontade,desejo por natureza opinativa,ao qual escolhendo-se por um lado,excluí-se necessariamente um outro.

Afixado por: Phil em novembro 23, 2005 12:23 PM
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