novembro 08, 2005

A Tranquilidade da Alma não se Alcança em Viagens

Pensas que só a ti isso sucedeu; admiras-te, como se fosse um caso raro, de após uma tão grande viagem e uma tão grande variedade de locais visitados não teres conseguido dissipar essa tristeza que te pesa na alma!? Deves é mudar de alma, não de clima. Ainda que atravesses a vastidão do mar, ainda que, como diz o nosso Vergílio, as costas, as cidades desapareçam no horizonte, os teus vícios seguir-te-ão onde quer que tu vás. Do mesmo se queixou um dia alguém a Sócrates: «Porquê admirar-te da inutilidade das tuas viagens,» - foi a resposta, - «se para todo o lado levas a mesma disposição? A causa que te aflige é exactamente a mesma que te leva a partir!» De facto, em que pode ajudar a mudança de local, ou o conhecimento de novas paisagens e cidades? Toda essa agitação carece de sentido. Andares de um lado para o outro não te ajuda em nada, porque andas sempre na tua própria companhia. Tens de alijar o peso que tens na alma; antes disso não há terra alguma que te possa dar prazer!

Temos de viver com essa convicção: não nascemos destinados a nenhum lugar particular, a nossa pátria é o mundo inteiro! Quando te tiveres convencido desta verdade, deixará de espantar-te a inutilidade de andares de terra em terra, levando para cada uma o tédio que tinhas à partida. Se te persuadires de que toda a terra te pertence, o primeiro ponto em que parares agradar-te-á de imediato. O que tu fazes agora não é viajar, mas sim andar à deriva, a saltar de um lado para o outro, quando na realidade o que tu pretendes - viver segundo a virtude - podes consegui-lo em qualquer sítio.

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

Publicado por pns em novembro 8, 2005 11:30 PM
Comentários

Bastante comovente...sem dúvida alguma. Faz-me lembra de uma obra de Thomas Mann,apelidada "Desilusão", ao qual um homem diz-se infeliz mesmo "buscando todas as vistas mais belas do mundo,não consegue esquecer da sua infelicidade",dos fatos passados malogrados,da vida sonhada...no fundo daquilo que ele é e o perturba. A fuga pode ser um alívio,pode acalmar,mas não curar. De fato,se alguém transtornar-se com a figura de um boi,por exemplo,em lembrança a algum fator de sua vida,mesmo tendo fugido para as grandes cidades,em algum outro objeto poderá ele visualizar aquele boi o que promoverá uma fuga constante deste boi e daquilo que pareceu um boi,podendo provocar muitas amarguras.

Sêneca não diz como deve-se proceder então com a alma,mas muitos psicólgoos modernos em estudo sobre a mente humana já dizem que a sua forma de interação é a busca no passado,sua compreensão de si mesmo,segundo Jung ou Adler,numa relação pessoal e também social(aliás,é disto que é formado grande parte do indivíduo). Ao que eles falam:" buscai as suas ações do cotidiano,seja do passado como do presente, e assim verás os seus vais e vens de sua mente...o problema é que ninguém vê,porque sempre está em ação...é necessário sair de si para olhar detalhadamente o que você é."

Afixado por: phil em novembro 19, 2005 01:40 AM

Bastante intrigante...sem dúvida alguma. Faz-me lembra de uma obra de Thomas Mann,apelidada "Desilusão", ao qual um homem diz-se infeliz mesmo "buscando todas as vistas mais belas do mundo,não consegue esquecer da sua infelicidade",dos fatos passados malogrados,da vida sonhada...no fundo daquilo que ele é e o perturba. A fuga pode ser um alívio,pode acalmar,mas não curar. De fato,se alguém transtornar-se com a figura de um boi,por exemplo,em lembrança a algum fator de sua vida,mesmo tendo fugido para as grandes cidades,em algum outro objeto poderá ele visualizar aquele boi o que promoverá uma fuga constante deste boi e daquilo que pareceu um boi,podendo provocar muitas amarguras.

Sêneca não diz como deve-se proceder então com a alma,mas muitos psicólgoos modernos em estudo sobre a mente humana já dizem que a sua forma de interação é a busca no passado,sua compreensão de si mesmo,segundo Jung ou Adler,numa relação pessoal e também social(aliás,é disto que é formado grande parte do indivíduo). Ao que eles falam:" buscai as suas ações do cotidiano,seja do passado como do presente, e assim verás os seus vais e vens de sua mente...o problema é que ninguém vê,porque sempre está em ação...é necessário sair de si para olhar detalhadamente o que você é."

Afixado por: phil em novembro 19, 2005 01:40 AM
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