«Nunca pretendi agradar ao vulgo; daquilo que eu sei o vulgo não gosta, daquilo que o vulgo gosta não quero eu saber.» Quem é o autor? Pareces pensar que eu ignoro que pessoa é o meu discípulo!... É Epicuro; mas o mesmo te dirão os mestres de todas as outras escolas, peripatéticos, académicos, estóicos, cínicos. Como pode de facto agradar ao vulgo alguém a quem só a virtude agrada? Não se conquista o favor popular por processos limpos. Terás de igualar-te primeiro ao vulgo, que só te aprovará quando te considerar um dos seus. Ora para a tua formação a opinião que tenhas sobre ti mesmo importa muito mais do que a dos outros. A amizade de pessoas dúbias só se concilia por processos dúbios.
Em que te ajudará nisto a filosofia, essa arte excelsa que a tudo sobreleva? Precisamente em levar-te a querer agradar mais a ti do que ao vulgo, a avaliar a qualidade, e não o número, das pessoas que emitem juízos sobre ti, a viver sem temor dos deuses ou dos homens, a poder vencer a adversidade ou a pôr-lhe cobro. Por outro lado, se eu te vir andar famoso nas bocas do mundo, se à tua entrada, como à de histriões no palco, ressoarem vivas e palmas, se por toda a cidade mulheres e crianças te tecerem louvores, como não hei-de eu lamentar-te, sabendo como sei qual a via para se obter tal favor?
Séneca, in 'Cartas a Lucílio'
Publicado por pns em novembro 20, 2005 11:15 AMO "Citador" merece nota dez na transcrição de hoje. Epicuro e Sêneca mereceriam estátuas só pelo que foi escrito acima. Vivemos numa época de extrema mediocridade, principalmente no campo das artes e das distrações. Para isso contribui o fator "massa", a quantidade prodigiosa de informações atordoando as imensas legiões de pessoas que, sem tempo para acompanhar e examinar - elas mesmas -, os produtos culturais, abdicam da crítica e seguem, como carneiros, balindo os elogios que lhes foram postos na boca pelos sagazes amestradores de focas, digo, idealizadores das promoções e propagandas. Com olhar parvo, cérebro bombardeado por mil informações não digeridas, e não podendo perder tempo com meditações - porque precisam correr atrás do dinheiro - a carneirada elogia o que lhe foi determinado elogiar e repudia o que lhe foi ordenado repudiar. O cinema americano - não tenho nada contra os americanos, que até me parecem, no geral, simpáticos - tornou-se, com raras exceções, um besteirol colorido de lugares comuns. Exibição de tecnologia e efeitos especiais, mas vazio de lógica, verossimilhança e criatividade. Criativos são apenas os autores dos truques. Bush precisou invadir o Iraque porque o cinema gasta metade do petróleo do país em explosões de tanques de gasolina - às vezes o carro explode no ar, antes de atingir o fundo do penhasco. Os diretores não dispensam as correrias adoidadas de automóveis em ruas apinhadas. E principalmente, "enrolam" em cenas de sexo mais ou menos explícito. Frequentemente o diretor, um ignorantão que se imagina o tal porque é "diretor", prolonga ao máximo as cenas de erotismo que começam com um salto acrobático, pernas abertas, da moça bonita que terrissa escanchada no atlético - tinha que ser - amante que conheceu meia hora antes, seguindo-se ruidosos, demorados e mastigados beijos de língua. Tudo isso para esticar o tempo do filme - que deve demorar tantos minutos - e excitar ligeiramente - o carneiro já está meio calejado -o rebanho ovino que a tudo assiste comendo batatinha frita. E não pode faltar a morte do policial velhusco, de fim de carreira, que prometeu se aposentar logo após desvendar esse último caso. Podem apostar que ele morre antes de terminado o filme. É uma regra sagrada. E na literatura - que implicaria um pouco mais de independência mental -, o besteirol que dá dinheiro - acolhido de braços abertos pelas editoras - gira em torno de espadas, pedras e poções mágicas, magos e auto-ajuda que ajuda principalmente o bolso do autor. Moda recente é o autor revelar um segredinho, oculto ha séculos, que ponha em choque as religiões estabelecidas. O autor descobre uma pista, escondidinha ha vários séculos por grupos secretos de cérebros poderosos, e reconta a história em sentido totalmente inverso. Não prova nem desprova nada, mas ganha milhões, tosquiando a carneirada crédula que invade as livrarias com olhar esgazeado para comprar livros que a deixam "atualizada".Enfim, vivemos na era da bobagem, a coisa que mais dá lucro. Assim, parabéns a Epicuro e Sêneca, que não se deixavam iludir. E pelo que eles dizem, a tapeação já existia na própria Grécia antiga,o que é espantoso porque àquele época não existiam escolas de propaganda e marketing.Provavelmente, quando São Pedro ouve alguém que o pressiona, dizendo que pode entrar no céu, sem o passaporte de virtudes, porque o homem foi feito à semelhança de Deus, o velho guardião grita, irritado: "Mentira! Vade retro, Satanás!"
Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em novembro 23, 2005 11:27 AMNa minha opiniao Séneca tem a razão do seu lado... não questionando, pois a razão! Na sociedade em que vivemos as pessoas tendem, cada vez mais a seguir um padrão, a "olhar" e a assimilar apenas o que a multidão quer... não interrogam o porquê da existência das coisas... limitam-se a aceitar. Além demais, tentam agradar aos outros, esquecendo o próprio saber e a própria vontade... e ainda dizem que vivemos em liberdade, quando estamos continuamente a pô-lo em causa...
Afixado por: Sandra em novembro 23, 2005 11:04 PMNa minha opiniao Séneca tem a razão do seu lado... não questionando, pois a razão! Na sociedade em que vivemos as pessoas tendem, cada vez mais a seguir um padrão, a "olhar" e a assimilar apenas o que a multidão quer... não interrogam o porquê da existência das coisas... limitam-se a aceitar. Além demais, tentam agradar aos outros, esquecendo o próprio saber e a própria vontade... e ainda dizem que vivemos em liberdade, quando estamos continuamente a pô-lo em causa...
Afixado por: Sandra em novembro 23, 2005 11:04 PMNa minha opiniao Séneca tem a razão do seu lado... não questionando, pois a razão! Na sociedade em que vivemos as pessoas tendem, cada vez mais a seguir um padrão, a "olhar" e a assimilar apenas o que a multidão quer... não interrogam o porquê da existência das coisas... limitam-se a aceitar. Além demais, tentam agradar aos outros, esquecendo o próprio saber e a própria vontade... e ainda dizem que vivemos em liberdade, quando estamos continuamente a pô-lo em causa...
Afixado por: Sandra em novembro 23, 2005 11:04 PMMuito interessante também os comentários do Francisco e da Sandra.
Existem mundos de comunicações onde são formadas opiniões sobre uns e sobre outros grupos. De fato, a nossa individualidade está nesta área "não vulgo"(daí reside a filosofia,como arte do "fazer entender" e não do "entender em si") e toda a nossa interpretação é cultural.
O estrategma da política é a ignorância....assim funciona a base do sofisma,na lógica do poder. Curioso é que as ciências vão se aprofundando e se distanciando cada vez mais da realidade de alguns que de fato são atraídos pelas íscas para uma rede em pleno mar aberto...
Não por acaso, uma das proposições da teoria da comunicação afirma que "quanto menor o repertório, maior a audiência". Madonna e Paulo Coelho são provas vivas.
Afixado por: milton em novembro 26, 2005 04:17 PMNão por acaso, uma das proposições da teoria da comunicação afirma que "quanto menor o repertório, maior a audiência". Madonna e Paulo Coelho são provas vivas.
Afixado por: milton em novembro 26, 2005 04:17 PM MEU COMENTÁRIO QUANTO AO 1.º COMENTÁRIO: um autêntico guião, também vou gostando cada vez menos de cinema, só lamento a minha "indiferença"- que se deve talvez à saturação, ruptura, desgaste etc. que esse cinema, muito bem descrito por o Sr. Francisco Pinheiro, já provocou em mim,tipo uma fobia secreta...tenho pena do meu descuido quanto ao cinema português- devia interessar-me mais: tenho que ver mais.
Claro que o pontencial humano existe em todas as épocas e, particularmente na Grécia, como é exemplo mais que sobejamente conhecido e até aproveitado politicamente, assim como, para tentar dizer que existe uma cultura europeia, por exemplo,com base na cultura grega e até Fernando Pessoa brincava - penso eu que ele brincava- quando dizia "Somos gregos".
...O começo do Renascimento, a famosa frase " O Homem é a medida de todas as coisas", antropocentrismo, ao invés de teocentrismo... para recordar, veio precisamente da propaganda política da antiga Grécia- a isto a população grega fazia chacota dizendo" mas uns com a medida maior que os outros", o que continuamos a usar também... veja-se por exemplo o título de alguns filmes:"UNS E OS OUTROS", o lema de outros filmes "uns mais porcos que os outros"...
Não sei se a mediocridade actual está nas artes se na política...
Afixado por: Sandra Gomes em novembro 29, 2005 03:39 PM