novembro 20, 2005

Agradar ao Vulgo é Mau Sinal

«Nunca pretendi agradar ao vulgo; daquilo que eu sei o vulgo não gosta, daquilo que o vulgo gosta não quero eu saber.» Quem é o autor? Pareces pensar que eu ignoro que pessoa é o meu discípulo!... É Epicuro; mas o mesmo te dirão os mestres de todas as outras escolas, peripatéticos, académicos, estóicos, cínicos. Como pode de facto agradar ao vulgo alguém a quem só a virtude agrada? Não se conquista o favor popular por processos limpos. Terás de igualar-te primeiro ao vulgo, que só te aprovará quando te considerar um dos seus. Ora para a tua formação a opinião que tenhas sobre ti mesmo importa muito mais do que a dos outros. A amizade de pessoas dúbias só se concilia por processos dúbios.

Em que te ajudará nisto a filosofia, essa arte excelsa que a tudo sobreleva? Precisamente em levar-te a querer agradar mais a ti do que ao vulgo, a avaliar a qualidade, e não o número, das pessoas que emitem juízos sobre ti, a viver sem temor dos deuses ou dos homens, a poder vencer a adversidade ou a pôr-lhe cobro. Por outro lado, se eu te vir andar famoso nas bocas do mundo, se à tua entrada, como à de histriões no palco, ressoarem vivas e palmas, se por toda a cidade mulheres e crianças te tecerem louvores, como não hei-de eu lamentar-te, sabendo como sei qual a via para se obter tal favor?

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

Publicado por pns em novembro 20, 2005 11:15 AM
Comentários

O "Citador" merece nota dez na transcrição de hoje. Epicuro e Sêneca mereceriam estátuas só pelo que foi escrito acima. Vivemos numa época de extrema mediocridade, principalmente no campo das artes e das distrações. Para isso contribui o fator "massa", a quantidade prodigiosa de informações atordoando as imensas legiões de pessoas que, sem tempo para acompanhar e examinar - elas mesmas -, os produtos culturais, abdicam da crítica e seguem, como carneiros, balindo os elogios que lhes foram postos na boca pelos sagazes amestradores de focas, digo, idealizadores das promoções e propagandas. Com olhar parvo, cérebro bombardeado por mil informações não digeridas, e não podendo perder tempo com meditações - porque precisam correr atrás do dinheiro - a carneirada elogia o que lhe foi determinado elogiar e repudia o que lhe foi ordenado repudiar. O cinema americano - não tenho nada contra os americanos, que até me parecem, no geral, simpáticos - tornou-se, com raras exceções, um besteirol colorido de lugares comuns. Exibição de tecnologia e efeitos especiais, mas vazio de lógica, verossimilhança e criatividade. Criativos são apenas os autores dos truques. Bush precisou invadir o Iraque porque o cinema gasta metade do petróleo do país em explosões de tanques de gasolina - às vezes o carro explode no ar, antes de atingir o fundo do penhasco. Os diretores não dispensam as correrias adoidadas de automóveis em ruas apinhadas. E principalmente, "enrolam" em cenas de sexo mais ou menos explícito. Frequentemente o diretor, um ignorantão que se imagina o tal porque é "diretor", prolonga ao máximo as cenas de erotismo que começam com um salto acrobático, pernas abertas, da moça bonita que terrissa escanchada no atlético - tinha que ser - amante que conheceu meia hora antes, seguindo-se ruidosos, demorados e mastigados beijos de língua. Tudo isso para esticar o tempo do filme - que deve demorar tantos minutos - e excitar ligeiramente - o carneiro já está meio calejado -o rebanho ovino que a tudo assiste comendo batatinha frita. E não pode faltar a morte do policial velhusco, de fim de carreira, que prometeu se aposentar logo após desvendar esse último caso. Podem apostar que ele morre antes de terminado o filme. É uma regra sagrada. E na literatura - que implicaria um pouco mais de independência mental -, o besteirol que dá dinheiro - acolhido de braços abertos pelas editoras - gira em torno de espadas, pedras e poções mágicas, magos e auto-ajuda que ajuda principalmente o bolso do autor. Moda recente é o autor revelar um segredinho, oculto ha séculos, que ponha em choque as religiões estabelecidas. O autor descobre uma pista, escondidinha ha vários séculos por grupos secretos de cérebros poderosos, e reconta a história em sentido totalmente inverso. Não prova nem desprova nada, mas ganha milhões, tosquiando a carneirada crédula que invade as livrarias com olhar esgazeado para comprar livros que a deixam "atualizada".Enfim, vivemos na era da bobagem, a coisa que mais dá lucro. Assim, parabéns a Epicuro e Sêneca, que não se deixavam iludir. E pelo que eles dizem, a tapeação já existia na própria Grécia antiga,o que é espantoso porque àquele época não existiam escolas de propaganda e marketing.Provavelmente, quando São Pedro ouve alguém que o pressiona, dizendo que pode entrar no céu, sem o passaporte de virtudes, porque o homem foi feito à semelhança de Deus, o velho guardião grita, irritado: "Mentira! Vade retro, Satanás!"

Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em novembro 23, 2005 11:27 AM

Na minha opiniao Séneca tem a razão do seu lado... não questionando, pois a razão! Na sociedade em que vivemos as pessoas tendem, cada vez mais a seguir um padrão, a "olhar" e a assimilar apenas o que a multidão quer... não interrogam o porquê da existência das coisas... limitam-se a aceitar. Além demais, tentam agradar aos outros, esquecendo o próprio saber e a própria vontade... e ainda dizem que vivemos em liberdade, quando estamos continuamente a pô-lo em causa...

Afixado por: Sandra em novembro 23, 2005 11:04 PM

Na minha opiniao Séneca tem a razão do seu lado... não questionando, pois a razão! Na sociedade em que vivemos as pessoas tendem, cada vez mais a seguir um padrão, a "olhar" e a assimilar apenas o que a multidão quer... não interrogam o porquê da existência das coisas... limitam-se a aceitar. Além demais, tentam agradar aos outros, esquecendo o próprio saber e a própria vontade... e ainda dizem que vivemos em liberdade, quando estamos continuamente a pô-lo em causa...

Afixado por: Sandra em novembro 23, 2005 11:04 PM

Na minha opiniao Séneca tem a razão do seu lado... não questionando, pois a razão! Na sociedade em que vivemos as pessoas tendem, cada vez mais a seguir um padrão, a "olhar" e a assimilar apenas o que a multidão quer... não interrogam o porquê da existência das coisas... limitam-se a aceitar. Além demais, tentam agradar aos outros, esquecendo o próprio saber e a própria vontade... e ainda dizem que vivemos em liberdade, quando estamos continuamente a pô-lo em causa...

Afixado por: Sandra em novembro 23, 2005 11:04 PM

Muito interessante também os comentários do Francisco e da Sandra.

Existem mundos de comunicações onde são formadas opiniões sobre uns e sobre outros grupos. De fato, a nossa individualidade está nesta área "não vulgo"(daí reside a filosofia,como arte do "fazer entender" e não do "entender em si") e toda a nossa interpretação é cultural.
O estrategma da política é a ignorância....assim funciona a base do sofisma,na lógica do poder. Curioso é que as ciências vão se aprofundando e se distanciando cada vez mais da realidade de alguns que de fato são atraídos pelas íscas para uma rede em pleno mar aberto...

Afixado por: Phil em novembro 26, 2005 02:55 AM

Não por acaso, uma das proposições da teoria da comunicação afirma que "quanto menor o repertório, maior a audiência". Madonna e Paulo Coelho são provas vivas.

Afixado por: milton em novembro 26, 2005 04:17 PM

Não por acaso, uma das proposições da teoria da comunicação afirma que "quanto menor o repertório, maior a audiência". Madonna e Paulo Coelho são provas vivas.

Afixado por: milton em novembro 26, 2005 04:17 PM

MEU COMENTÁRIO QUANTO AO 1.º COMENTÁRIO: um autêntico guião, também vou gostando cada vez menos de cinema, só lamento a minha "indiferença"- que se deve talvez à saturação, ruptura, desgaste etc. que esse cinema, muito bem descrito por o Sr. Francisco Pinheiro, já provocou em mim,tipo uma fobia secreta...tenho pena do meu descuido quanto ao cinema português- devia interessar-me mais: tenho que ver mais.
Claro que o pontencial humano existe em todas as épocas e, particularmente na Grécia, como é exemplo mais que sobejamente conhecido e até aproveitado politicamente, assim como, para tentar dizer que existe uma cultura europeia, por exemplo,com base na cultura grega e até Fernando Pessoa brincava - penso eu que ele brincava- quando dizia "Somos gregos".
...O começo do Renascimento, a famosa frase " O Homem é a medida de todas as coisas", antropocentrismo, ao invés de teocentrismo... para recordar, veio precisamente da propaganda política da antiga Grécia- a isto a população grega fazia chacota dizendo" mas uns com a medida maior que os outros", o que continuamos a usar também... veja-se por exemplo o título de alguns filmes:"UNS E OS OUTROS", o lema de outros filmes "uns mais porcos que os outros"...

Afixado por: Sandra Gomes em novembro 27, 2005 09:21 PM

Não sei se a mediocridade actual está nas artes se na política...

Afixado por: Sandra Gomes em novembro 29, 2005 03:39 PM
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