Rochefoucauld observou de maneira pertinente que é difícil, ao mesmo tempo, ter em alta estima e amar muito a mesma pessoa. Teríamos, então, de escolher entre querer ganhar o amor ou a estima dos homens. O seu amor é sempre interesseiro, embora de maneiras bem diversas. Além do mais, a condição que nos permite conquistá-lo nem sempre é apropriada para nos orgulharmos. Antes de mais nada, uma pessoa é tanto mais amada quanto mais moderar as suas expectativas em relação ao espírito e ao coração dos outros; e tudo isso a sério, sem fingimento, e não apenas devido à indulgência enraizada no desprezo. Recordemos aqui o dito verdadeiro de Helvécio: «O grau de espírito necessário para nos agradar é uma medida bastante exacta do grau de espírito que possuímos». E assim chegamos à conclusão iniciada pelas premissas. Por outro lado, quando se trata da estima dos homens, dá-se o contrário: esta só lhes é arrancada contra a vontade; por isso, na maioria das vezes é ocultada. Desse modo, ela proporciona-nos uma satisfação interior bem maior, pois está relacionada ao nosso valor, o que não vale imediatamente para o amor dos homens, já que este é subjectivo, enquanto a estima é objectiva. Decerto, todavia, o amor nos é mais útil.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'
Publicado por pns em novembro 23, 2005 09:00 AMParágrafo difícil de comentar porque difícil de entender. Mais fácil será limitar a observação ao que afirmou claramente Rochefoulcaud. E restringindo o assunto ao amor entre homem e mulher. Realmente,a admiração ("alta estima")não combina bem com aquele amor mais usual em que há um forte e "baixo" componente sexual. A admiração provoca frios sentimentos de respeito, distantes, cerebrais, refinados, "elevados", pouco compatíveis com um certo grau de brutalidade e animalidade, próprias do sexo. Para alguns, não é possível "agarrar" uma santa com odor de santidade - ele preferiria outros odores -,mesmo casada com ele, praticando e murmurando coisas pesadas e mais adequadas a ouvidos femininos corrompidos, pelo menos naquele momento de fantasia. É por isso que às vezes ficamos sabendo de maridos casados com mulheres essencialmente castas, de corpo e espírito - até bonitas, mas de beleza delicada e nada sensual - que acabam arranjando uma amante meio burra mas que desperta e satisfaz a parte libidinosa de sua natureza. O marido sabe que a sua casta esposa é, em quase tudo, pessoa muito superior à amante, e por isso não troca de mulher. Como ele é metade anjo e metade besta, a besta humana vai tocando a vida em eterno conflito íntimo entre seguir a moral vigente - sacrificando a carne - ou satisfazendo esta mas sacrificando a consciência. A longo prazo,é melhor - mais barato, mais sadio, mais seguro - atender à consciência. Porém, chegada a velhice, aqueles não agraciados com uma profunda fé cristã em uma vida após a morte arrependem-se de não ter concedido um pouco de espaço à loucura e à fantasia. Conflitos deste tipo não desaparecerão tão cedo da face da terra, no mundo ocidental, cristão, enquando a moral não tentar novos e imprevisíveis caminhos, certamente mais "fáceis", ou tolerantes. Imagino que caminhos serão estes, mas não convém mexer, aqui, neste vespeiro. Os ferrões femininos já estão desembainhados, prontos a atacar com o simples prefácio de um problema que está já ferindo ou feriu muita gente.
Afixado por: F. C. Pinheiro Rodrigues em novembro 24, 2005 01:04 AMParágrafo difícil de comentar porque difícil de entender. Mais fácil será limitar a observação ao que afirmou claramente Rochefoulcaud. E restringindo o assunto ao amor entre homem e mulher. Realmente,a admiração ("alta estima")não combina bem com aquele amor mais usual em que há um forte e "baixo" componente sexual. A admiração provoca frios sentimentos de respeito, distantes, cerebrais, refinados, "elevados", pouco compatíveis com um certo grau de brutalidade e animalidade, próprias do sexo. Para alguns, não é possível "agarrar" uma santa com odor de santidade - ele preferiria outros odores -,mesmo casada com ele, praticando e murmurando coisas pesadas e mais adequadas a ouvidos femininos corrompidos, pelo menos naquele momento de fantasia. É por isso que às vezes ficamos sabendo de maridos casados com mulheres essencialmente castas, de corpo e espírito - até bonitas, mas de beleza delicada e nada sensual - que acabam arranjando uma amante meio burra mas que desperta e satisfaz a parte libidinosa de sua natureza. O marido sabe que a sua casta esposa é, em quase tudo, pessoa muito superior à amante, e por isso não troca de mulher. Como ele é metade anjo e metade besta, a besta humana vai tocando a vida em eterno conflito íntimo entre seguir a moral vigente - sacrificando a carne - ou satisfazendo esta mas sacrificando a consciência. A longo prazo,é melhor - mais barato, mais sadio, mais seguro - atender à consciência. Porém, chegada a velhice, aqueles não agraciados com uma profunda fé cristã em uma vida após a morte arrependem-se de não ter concedido um pouco de espaço à loucura e à fantasia. Conflitos deste tipo não desaparecerão tão cedo da face da terra, no mundo ocidental, cristão, enquando a moral não tentar novos e imprevisíveis caminhos, certamente mais "fáceis", ou tolerantes. Imagino que caminhos serão estes, mas não convém mexer, aqui, neste vespeiro. Os ferrões femininos já estão desembainhados, prontos a atacar com o simples prefácio de um problema que está já feriu muita gente.
Afixado por: F. C. Pinheiro Rodrigues em novembro 24, 2005 01:10 AMé melhor partir da própria experiência, por isso, tudo isto me passa ao lado...
Afixado por: Sandra Gomes em novembro 24, 2005 04:52 PMFaz parte da ambição inata do ser humano querer ser reconhecido por qualquer coisa que se queira ser ou ter. O amor se sincero ignora tais desejos e demais efeitos oriundos da estima.
Afixado por: Zoltan em novembro 25, 2005 07:55 PM
Reconheço uma complicação naquilo que Schopenhauer diz...penso que a estima e o amar podem se misturar,todavia de outro lado podem se separar... A estima pode ser mera admiração pelo caráter ou atitude,na forma de querer ser o outro,mas o amor é uma expressão genuína e difícil de se obter.
Daquilo que se extrai deste último,pouco se sabe a sua origem,talvez muito além de uma simples estima...mais para a vaidade...