dezembro 04, 2005

A Verdadeira Coragem Humana

Se estás disposto a nunca usar da violência, e sempre resistindo, torna-te forte de corpo e de alma; é a mais difícil de todas as atitudes; exige a constante vigilância de todos os movimentos do espírito, o domínio completo de todos os impulsos dos nervos e dos músculos rebeldes; a agressão é fácil contra o medo e também a primeira solução; para que, em todos os instantes, a possas pôr de lado e substituí-la pela tranquila recusa, não te deves fiar nos improvisos; a armadura de que te revestes nos momentos de crise é forjada dia a dia e antes deles; faz-se de meditação e de ginástica, de pensamento definido e preciso e de perfeitos comandos; quando menos se prevê surge o instante da decisão; rápida e firme, sem emoções ou sufocando-as, tem que trabalhar a máquina formada.

Que trabalhar, sobretudo, humanamente; a visão do autómato é a pior de todas para os amigos do espírito; não serão teus elementos nem a secura, nem a estóica dureza, nem o ar superior, nem as cortantes palavras; requere-se no inabalável a humanidade, o sorriso afectuoso, a íntima bondade, a desportiva calma, amiga do adversário, de quem joga um bom jogo; sozinho guardarás as lutas interiores que tens de suportar, a batalha contínua para impores o silêncio aos instintos de ataque e da vingança; será tua boa auxiliar a pele dura e uma carne que, domada, suporte, sem revolta, as provações e os trabalhos; o óleo do ginásio ajuda Marco Aurélio; quem se adivinha senhor de si melhor resistirá sem violência a tudo o que inventou a real fraqueza do contrário; e só tem que se guardar dos perigos da altivez e do desprezo.

Agostinho da Silva, in 'Considerações e Outros Textos'

Publicado por pns em dezembro 4, 2005 04:30 PM
Comentários

Interessante como a essência de um mesmo pensamento pode ser expressada de forma diferente por diferentes culturas.
Este pensamento de Agostinho pode ser lido, claro, em outras palavras, no Bhagavad Gita, um do livros sagrados do Hinduísmo, em um diálogo entre o Príncipe e Krishna, onde este último ensina ao primeiro que a grande luta da vida do homem se passa, não contra as forças externas que lhe cobram diarimente a sobrevivência e a perpetuação da espécie, mas sim, no seu íntimo, onde as forças gigantescas dos seu instintos primevos(os generais Kundus) estão em contínua luta contra os valores recém-chegados ao seu espírito, adquiridos ao longo da longa jornada evolutiva (o amor, a fraterninade, a bondade, etc) representados pelos genenerais Pândavas.

Afixado por: Eraldo Vilar Oliveira em dezembro 6, 2005 11:26 AM

Brava concepção do autodomínio.
Esclarecedor e pertinente.

(www.marceladas.blogspot.com)

Afixado por: Marcelo Melo em março 2, 2006 10:40 AM

Gostava aqui de lembrar uma das últimas frases de João Paulo II.
" É o Amor que converte e dá paz."

Afixado por: Manuel em abril 24, 2006 11:39 PM

Gostava aqui de lembrar uma das últimas frases de João Paulo II.
" É o Amor que converte e dá paz."

Afixado por: Manuel em abril 24, 2006 11:39 PM
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