Quanto mais aprofundamos, com a vida, a própria sensibilidade, mais ironicamente nos conhecemos. Aos 20 anos eu cria no meu destino funesto; hoje conheço o meu destino banal. Aos 20 anos aspirava aos Principados do Oriente; hoje contentar-me-ia, sem pormenores nem perguntas, com um fim da vida tranquilo aqui nos subúrbios, dono de uma tabacaria vagarosa.
O pior que há para a sensibilidade é pensarmos nela, e não com ela. Enquanto me desconheci ridículo, pude ter sonhos em grande escala. Hoje que sei quem sou, só me restam os sonhos que delibero ter.
(...) O ridículo é o couce da inteligência; há muito que da inteligência não possuo senão o couce.
Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou. De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista demais para a pensar em fazer; pensar em fazê-la seria pensar em dar de mim a ideia de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado. A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão.
Fernando Pessoa, in 'Reflexões Pessoais (1930)'
Publicado por pns em novembro 28, 2005 09:00 AMSó que o couce de Fernando Pessoa, é um couce de tom certo, às vezes um pouco exagerado, mas, nunca, de maneira nenhuma, chega a ser desinteligente e "insensível".
Afixado por: Sandra Gomes em novembro 28, 2005 01:01 PMEstá aí a explicação para seus heterônimos... Fernando Pessoa quis ser(e conseguiu) ser o poeta fragmentado,do ato da sensibilidade e não da idéia. Por isso, com sua imprecisão a que toda as suas idéias nos remete pertence tipicamente como o de um artista que para desenhar sua arte é preciso desligar-se da pessoa que é, para tornar-se um autor naquilo que faz. Está ai a separação entre pessoa e autor(no caso de Fernando Pessoa,autores). Por isso a sensiblidade medida...realmente um excerto genial.
Afixado por: Phil em dezembro 13, 2005 02:21 AM