É possível que os maus sejam entre si prazenteiros, não enquanto maus ou nem bons nem maus, mas enquanto, por exemplo, ambos são músicos, ou um é melómano e o outro cantor; e enquanto todos têm algo de bom e nisto se harmonizam entre si poderão, ademais, ser reciprocamente úteis e prestáveis, não em sentido absoluto, mas em vista da sua escolha, ou enquanto não são nem bons nem maus. É igualmente possível a um homem de bem ter um amigo medíocre; cada qual pode, de facto, ser útil ao outro em vista da escolha, o medíocre pode apoiar utilmente o projecto do bom, e este último pode secundar com utilidade o projecto do incontinente e do mau em conformidade com a sua natureza; e desejará para o outro as coisas boas: em sentido absoluto as coisas absolutamente boas e, de modo condicional, os bens que são tais para aquele, enquanto o ajudam na pobreza ou nas enfermidades, e estes em vista dos bens absolutos: como, por exemplo, tomar um remédio; não o quer, de facto, por si mesmo, mas em vista deste fim determinado.
Além disso, [o bom pode ser amigo do medíocre] naqueles modos em que também os não bons seriam entre si amigos. Pode um, de facto, ser aprazível não enquanto mau, mas enquanto partilha uma das propriedades comuns, por exemplo, se é músico. Também enquanto em todos há algo de bom; por isso, alguns associam-se, inclusivé, ao homem bom. Ou enquanto se acomodam a cada qual: todos têm, de facto, algo de bom.
Aristóteles, in 'Ética a Eudemo'
Publicado por pns em novembro 30, 2005 09:00 AMNão obstante uma certa falta de clareza - certamente a tradução poderia ser melhor - Aristóteles tinha razão quanto à eventual utilidade dos maus. No caso recente do ônibus incendiando no Rio - com pessoas dentro, queimadas vivas -, o chefe do tráfico mandou eliminar aqueles de cometeram a barbaridade. Pelo menos dois dos incendiários e homicidas baleados foram reconhecidos pelas vítimas. Foi um caso dos "maus" castigarem outros ainda pior. O Estado talvez não conseguisse chegar aos criminosos incendiários. Assim, a execução dos "super-maus", pelos apenas "maus" foi uma boa notícia - respeitada a opinião mais ferrenhamente legalista de que tais incendiários deveriam somente ser processados e pegar alguns anos de prisão. Com a rápida pena de morte, aplicada pelos traficantes - que precisam manter uma certa imagem de "justiceiros" nas favelas que dominam - é provável que não surjam novos casos de incêndio de ônibus com pessoas dentro. Uma paradoxal utilidade do crime organizado. A pena de morte, instituída pela "legislação" do tráfico, é muito mais temida e eficaz que a burocrática prisão, fornecida pelo Estado. Pena que o Estado brasileiro tenha se auto-manietado, na Constituição, tornando a proibição da pena de morte uma "cláusula pétrea", assim boicotando a opinião das gerações seguintes, que podem concluir pela utilidade da pena de máxima, pelo menos contra grandes criminosos do crime organizado. Enfim, Aristóteles tem razão ao reconhecer que em certas ocasições, os "maus" podem ser bem úteis, e os "bons" - em casos mais raros - inúteis. Homens "bons" podem produzir frutos maus. George W. Bush, por exemplo, é um homem autenticamente religioso, bom marido, bom filho, bom pai e "good fellow", tratando todo mundo amavelmente, com tapinhas nas costas. No entanto, pensando "fazer o bem", decidiu enfiar, no muque - depois de algumas mentiras "bem intencionadas" sobre a existência de armas de destruição em massa - a democracia, estilo ocidental, pela goela do Iraque, provocando mortes e aleijões de milhares de vítimas inocentes e prejudicando também o próprio país. Digo isso para salientar que não basta a intenção de fazer o bem. É preciso pensar muito nas consequências desconhecidas do próprio ato de bondade. A simples intenção já não basta em um mundo cada vez mais complexo.
Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em dezembro 4, 2005 12:48 PMBelo discurso complementar foi o seu meu caro Francisco,mas isso não é de agora. A intenção nunca correspondeu por si só à realidade,onde seu mecanismo funciona com o imediatismo humano em considerar belo exteriormente,sem nunca ter conhecido o seu interior,indecifrável se buscarmos o "total". É na vida(vivência) que nós descobrimos a nossa filosofia,aquilo que somos, fazemos e pensamos.
Creio que Aristoteles tenha dito apenas quanto a sua vizão da utilidade. Que o que mais importa não é ser um ou outro,mas ser útil,seja mau ou bom. Aliás, ser um útil para um certo grupo pode gerar também um clima caloroso de que é bom,enquanto ser rejeitado significaria ter ódio,aquilo que certamente um outro grupo(distante) pode inverter os conceitos para os personagens! Para os que tem sua vez é bom,para os que não terão é mau.Assim, julgamentos morais é mais uma questão de visão que algo absoluto.
Por isso, o senso comum é mais aquele generalizado por alguém de grande importância do que "senso comum" propriamente....