Há uma espécie de propaganda com que se pode levantar o moral de uma nação - a construção ou renovação e a difusão consequente e multímoda de um grande mito nacional. De instinto, a humanidade odeia a verdade, porque sabe, com o mesmo instinto, que não há verdade, ou que a verdade é inatingível. O mundo conduz-se por mentiras; quem quiser despertá-lo ou conduzi-lo terá que mentir-lhe delirantemente, e fá-lo-á com tanto mais êxito quanto mais mentir a si mesmo e se compenetrar da verdade da mentira que criou. Temos, felizmente, o mito sebastianista, com raízes profundas no passado e na alma portuguesa. Nosso trabalho é pois mais fácil; não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, por cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião.
Fernando Pessoa, in 'Resposta do Inquérito «Portugal, Vasto Império»'
Publicado por pns em dezembro 30, 2005 09:00 AMNão é necessário espezinhar as esperanças que são sempre um ponto de partida do mau ou menos bom para algo muito melhor. A isso chamo construção de uma mentalidade sadia que parte de uma crença em que o sonho é o inicio, o princípio da ambição "saudável" de querer melhorar seja o que for. Para mim a esperança não consiste em só esperar melhor, mas também em olhar e ver tudo o que nos rodeia de maneira diferente, não para alcançar o mito inalcançavel, mas sim para desconstruí-lo e torná-lo próximo do real, transformá-lo em algo possível humanamente.
Eu que senti desde logo a frustrante alma sebastianistica, também a descobri em letargo estival, dentro de mim. E sempre que a buscava, sabia que nada do que eu ansiva e desejava seria possível realmente. Mas caí sempre e cheguei ao fim e finalmente acredito que a minha mentalidade de raíz caiu por terra.
Porque apartir de agora não procuro o impossível, como incentivo falso e frustrante, mas olho e toco o novo modo de pensar e agir dentro da construção da realidade. A única coisa que me guia é o sentir verdadeiro no momento em que o sinto, pensando, mesmo que amanhã não o sinta daquele modo, quando o senti era totalmente verdadeiro. Até aos nosso dias houve quem preservasse a nossa identidade portuguesa e até quem a honrasse, mas infeliz ideia tiveram aqueles que se serviram dela para atingir objectivos menos sérios e dignos. Eu não vejo mal em ter um pouco de expectativa de forma sadia, só para recordar um pouco o que é esperar sem nada se fazer e acreditar que o salvador virá num dia de nevoeiro, tavez num cavalo branco ou negro. Pois é para mim talvez o começo da criatividade, porque enquanto espero, invento, sonho e idealizo mil e uma maneiras de preencher esse vácuo, essa falta, essa falha, que faz doer e sofrer, de algo que se espera que aconteça e nunca se torna realidade!
Para além do lado menos bom do sebastianismo, temos o lado menos mau que também permite espicaçar o impossível e ao mesmo tempo fazer crescer a imaginação de forma prodigiosa e brilhante. Só não aconselho a continuação do método.
Muito bom o seu comentário Luisa.
Certamente nos embasamos nestes mitos mais como uma justificativa falsa de uma fonte de verdade mentira do que propriamente da realidade. Sebastião nunca virá resgatar os portugueses,mas é através deste mito é que persiste uma esperança meio que alienada ao que foi forjado à tempos,cuja conseqüência é a crença.
Um ator francês disse em meados de 1910:"Se perceberes toda a iniquidade de cada governo,nunca serás um nacionalista verdadeiro." Assim das muitas realidades que se percebe são apenas fragmentos de uma realidade mais ampla. O caráter nacional é o algo forjado para se criar uma nação. São características que com os tempos atuais vem se reduzindo imensamente graças ao intercâmbio cultural que tira a identidade nacional do indivíduo em pouco a pouco. Se olharmos esta realidade estaremos já anti-patriota(leia-se conhecedor de outros mitos ou raciocínios que por assim mesmo detroçam o mito vigente porque este foi baseado na fé e cuja razão se deu ao trabalho de desmontar). Assim, vemos hoje rebuliçar um nacionalismo mais pessoal(na crença fiel,digna de fé,como a devoção a um time de futebol ou a um dada religião).
O nacionalismo sempre foi uma espécie de fanatismo baseada na crença fidedigna e absoluta de uma verdade forjada e assim se formaram as nações, as idéias e civilização como um todo. Assim eu digo que o nacionalismo é a chama da vontade de um grupo e de seus mitos.