Apenas julgamos comprar aquilo que nos custa dinheiro, enquanto consideramos gratuito o que pagamos com a nossa própria pessoa. Coisas que não quereríamos comprar se em troca devêssemos dar a nossa casa, ou uma quinta de recreio, ou de rendimento, estamos inteiramente dispostos a obtê-las a troco de ansiedades e de perigos, para tal sacrificando a honra, a liberdade, o tempo. A tal ponto é verdade que a nada damos menos valor do que a nós próprios! Façamos, portanto, em todas as nossas decisões e actos, o mesmo que fazemos ao abordar qualquer vendedor: perguntemos o preço da mercadoria que desejamos.
Frequentemente pagamos ao mais alto preço algo por que nada deveríamos dar. Posso indicar-te muitos bens cuja aquisição, mesmo por oferta, nos custa a liberdade: seríamos donos de nós próprios se não fôssemos possuidores de tais bens.
Deves meditar no que te digo, quer se trate de lucros quer de despesas. «Este objecto vai estragar-se». Ora, é uma coisa exterior; tão facilmente passarás sem ela como passaste antes de a ter. Se tiveste esse objecto bastante tempo, perde-lo depois de saciado; se pouco tempo, perde-lo antes de te habituares a ele. «Ganharás menos dinheiro». E menos preocupações, também. «Será menor o teu crédito». Igualmente será menor a inveja. Atenta em todos esses pretensos bens que nos dão a volta ao juízo e cuja perda nos ocasiona imensas lágrimas: verás que não somos afectados por nenhum prejuízo autêntico, mas apenas pela ideia de um prejuízo. É uma perda que não sentimos, apenas imaginamos. Quem é dono de si próprio não pode perder nada. Mas quantos são os que sabem ser donos de si próprios!?
Séneca, in 'Cartas a Lucílio'
Publicado por pns em janeiro 6, 2006 09:00 AMTalvez se Sêneca estivesse vivendo em nossa vigente época(ou mesmo antes) ele desfaleceria em desespero uma vez mais somos parte de um todo do que de nós, seja na mentalidade das idéias,seja nos pertences.
De antemodo, vejo nesta troca entre objeto e liberdade mediado pelo capital algo muito menor principalmente quando se trata de vidas. O dinheiro desqualifica pessoas,tornam-as mais importantes, mais cintiliantes,mais pessoas que outras. Estas tem mais direito de ser socorridas do que outras que caso não tenha condição de bancar um bom médico, apodrecerá na fila de um posto de saúde público(nos países subdesenvolvidos isto ocorre com a máxima de freqüência e os incidentes aumentam!).
Desgarrar-se deste sistema é o que há de mais complicado,pois é desgarrar de seu meio, de parte de sua existência ao qual se encontra inserido plenamente...tentemos o máximo e seremos donos de um reduzido espaço de nós...mas nunca seremos donos por completo.