Não avalies os bens e os males segundo o critério do vulgo: deves verificar, não donde eles provêm, mas sim para que fim tendem. Tudo o que possa contribuir para a obtenção de uma vida feliz será um bem de pleno direito, já que não pode degradar-se até tornar-se um mal.
Toda a gente, contudo, ambiciona ter uma vida feliz; porque sucede então que quase todos falham o alvo? Pelo facto de se tornar por felicidade o que não passa de um meio para atingir; por isso, quanto mais a buscam, mais dela se afastam. O cúmulo da felicidade consiste numa perfeita segurança, numa inabalável confiança no seu valor; ora o que as pessoas fazem é arranjar motivos de preocupação, é percorrer a traiçoeira estrada da vida ajoujadas de pesados fardos. Deste modo vão-se sempre distanciando cada vez mais da meta que procuram alcançar, e quanto mais se esforçam por atingi-la mais se embaraçam e retrocedem. Sucede-lhes como a alguém que corra num labirinto: a própria velocidade faz perder o norte.
Séneca, in 'Cartas a Lucílio'
Publicado por pns em janeiro 13, 2006 09:00 AMDiminuindo o grau de abstração contida nas palavras de Sêneca, pode-se apontar uma das causas da infelicidade do ser humano: o "jogar para a platéia", isto é, proceder, não segundo o próprio sentir, a própria intuição da verdade, mas conforme a escala de valores imposta pela sociedade que nos cerca e que nem sempre confere com nosso íntimo. Dou exemplos: até poucas décadas atrás, moças solteiras, temendo - com certa razão - ficar para "titias", acabavam casando com qualquer um, levando depois uma vida infeliz. Talvez até mesmo sufocando desejos de adultério, porque a natureza segue regras próprias, nem sempre coincidentes com o Código Civil.Infeliz para ela e também para o marido, que com o tempo percebia ter sido apenas um instrumento para a cara-metade sair da casa dos pais. Outras, casavam achando o marido apenas "tolerável", mas já guardando na mente, de reserva, um "Plano 2": "Se eu não agüentar mais esse bicho, e trabalhar fora, separo-me dele e posso levar minha vida, sem a vigilância de meus pais. Aí sim, vou procurar a verdadeira felicidade. Quando solteira, eles tinham o direito de me vigiar. Agora, separada, sou dona de meu nariz". Prestar grande atenção ao próprio íntimo é essencial à felicidade. Conheci um rapaz de grande inteligência, filho único, e que queria ser médico. O pai, homem extremamente bom, chefe de família modelo, tinha, porém, uma frustração e um sonho conexo com essa frustração: ser engenheiro. Como não tinha tido oportunidade de estudar engenharia, transferiu esse sonho ao filho. Seria engenheiro "através" do filho. E pressionou, bem intencionado, para que o rebento estudase engenharia. O filho acabou cedendo. Como era um aluno muito capaz, em condições de assimilar todo tipo de conhecimento, formou-se em engenharia. Nomeado para um cargo de engenheiro, em importante empresa, matou-se no primeiro dia de trabalho, sem deixar qualquer explicação. Se explicasse, duplicaria o inferno na alma do pai. Eu, porém, penso que sei a origem mais provável do gesto louco e aparentemente sem explicação, porque milhares de jovens engenheiros gostariam de estar naquele emprego. O recém-nomeado deve ter olhado para a prancheta de trabalho e pensado: " Até quanto terei de me violentar, fazendo o que não gosto? Terei a coragem de dizer ao meu amado pai, agora zonzo de tanta felicidade, que odeio o trabalho para onde ele me empurrou?" A solução para o dilema foi o suicídio. Fosse ele mais "egoísta", dizendo "não" ao sonho do pai, não teria se matado. O pai, certo, sentiria frustração, mas provavelmente não se mataria. Por outro lado, por vezes os pais são concordantes demais aos desejos dos filhos e não pressionam, nem mesmo levemente, para que escolham uma profissão que assegure um mínimo de condições materiais. O filho escolhe uma trabalho, ou curso sem nenhum futuro material e pode vir a se arrepender alguns anos depois, decepcionado com a baixa remuneração de seu trabalho e a necessidade de mais dinheiro para criar e educar os filhos. Isso tudo mostra como é difícil viver. Se "empurramos" nossos filhos, pode ser trágico; se não "empurramos", pode ser triste. Mas é melhor ser triste que trágico.
Afixado por: Francisco César Pinheiro Rodrigues em janeiro 13, 2006 01:03 PMDe fato, a luta em busca da tal felicidade nos impede de perceber quão próxima ela está de nós. Como observou o filósofo, nos perdemos nos meios e no conceito de felicidade que os outros estabelecem, sem nos dar conta do que é importante para nós... e isso apenas leva ao cúmulo da infelicidade. Uma sensação de angústia e vazio, por se estar sempre correndo em busca de algo que nunca se saberá ao certo o que é, desprestigiando os pequenos mas significantes sinais diários - um filho(!!!), um bom emprego, um alimento saboroso, uma paisagem, um amigo querido, a família, o final-de-semana, os dons que temos e que não nos damos conta. Pode parecer piegas, mas pra mim, é a mais pura verdade.
Afixado por: Maria Alagia em janeiro 16, 2006 03:53 PMSêneca em seu tempo certamente ainda podia se dar ao luxo de opcionar por algum intento e apenas ser traído por falsas prerrogativas de suas opções próprias.Atualmente, temos além desta, aquela ao qual o amigo comentarista Francisco desenvolveu muito bem a questão retratando como o pensamento social pode nos trair imensamente e forçar-nos a seguir um certo caminho,posto que é um mal necessário. Entre triste e trágico, o mundo vem se perdendo em desorganização fecunda.
Afixado por: Phil em janeiro 17, 2006 07:39 PM