janeiro 27, 2006

Instinto de Rebanho

Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avaliação e uma classificação hierárquica dos instintos e dos actos humanos. Essas classificações e essas avaliações são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: é aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe é útil em primeiro lugar - e em segundo e em terceiro -, que serve também de medida suprema do valor de qualquer indivíduo. A moral ensina a este a ser função do rebanho, a só atribuir valor em função deste rebanho. Variando muito as condições de conservação de uma comunidade para outra, daí resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. A moralidade é o instinto gregário no indivíduo.

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'

Publicado por pns em janeiro 27, 2006 09:00 AM
Comentários

De pleno acordo, Sr.Nietzsche. Em todos os ambientes. Nas famílias, por exemplo. Uma família atormentada pela falta de dinheiro e emprego não investigará demais de que modo um de seus membros, homem ou mulher - principalmente se jovem e bonita -, começou, subitamente, a ganhar dinheiro e trazê-lo para casa. Se aumentar a desconfiança de que esse dinheiro tem origem ilícita ou moralmente suspeita, aí é que ficará tacitamente proibida qualquer curiosidade excessiva sobre as causas dessa mudança. Isso porque a sobrevivência é a lei maior da vida. Do grupo e do indivíduo. No fim da 2a. Guerra Mundial, em países europeus devastados, moças à beira da inanição - elas e seus familiares -, viam-se na "obrigação moral" de fazerem concessões que nunca fariam em situações normais. O que seria "vício" ou falta de vergonha poderia, em condição extrema, se vista como "sacrifício", se com isso salvasse da morte, por inanição, seus pais ou irmãos. Se essa mesma família não estivesse com agudos problemas de finanças essa súbita mudança despertaria questionamentos severos dos familiares mais responsáveis. Meninos de família rica que brincam na rua com meninos pobres de favelas logo sentem que não podem ser "bonzinhos" demais. Bondade, aí, é considerada fraqueza, a merecer humilhação. Se eu fosse advogado de Saddan Husseim,no seu julgamento, minha linha de defesa principal seria a de que, no Iraque, antes da invasão americana, a principal condição de governabilidade era a da valentia, da falta de medo, da dureza com os adversários. Sem isso, o governante era logo deposto - e morto. Assim estava escrito nos hábitos nacionais, que os seus julgadores deveriam levar em conta. Tentativa de morte contra ele que não fosse logo reprimida com sangue estimularia novos atentados. O mesmo ocorre no ambiente carcerário. O preso educado, desprovido de agressividade e astúcia, logo se arrependerá de possuir qualidades humanas que, em outros ambientes, seriam altamente elogiadas.

Afixado por: Francisco C. Pinheiro Rodrigues em janeiro 29, 2006 08:16 PM

Exatamente...

Eis aqui representado aquilo que Nietzsche quebra literalmente no século XIX,com suas teorias niilistas, de que a moral é depreciativa e guiadora de rebanhos. Ela quebrou uma geração de códigos de honras que resultaram em guerras funestas entre Estados e famílias. Após tamanha façanha e futuras guerras,o mundo sofreu e mudou.
Foi estruturado um 4º poder(mídia) que diz ser 'gerador de justiça' tamanho o seu impacto na população. Surgiu-me uma crucial questão: Será que algum poder possa ser considerando livre, já que todo 'poder é vontade' e se vontade agrada apenas o mínimo para se executar ordem interna(flagelo da democracia)?
São perguntas que sempre me faço...

A moral que antes era regulada pelo Estado,cuja função era gerar uma harmonia interna com o nacionalismo(embora que forçada e violenta), hoje é geradora de um formidável caos,onde o governo passa a ter voz secundária e o indivíduo passa a ser por ele mesmo massa de manobra(alienação através do discurso tecnológico da mídia -um mal invisível).Após séculos de cinema, podemos saber muito bem através de diversos pensadores, dentre eles o fantástico Walter Benjamin, que as imagens possuem poder...
Nietzsche choraria caso estivesse cá no nosso tempo testemunhando tamanha balbúrdia...

Moral é conscientização e como tal, o ser humano precisa para poder discernir o certo do errado proveniente de sua cultura, caso contrário a liberdade vira inevitavelmente libertinagem. A coersão é necessária...

Afixado por: Phil em fevereiro 3, 2006 02:42 AM
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