O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir.
Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'
Publicado por pns em janeiro 30, 2006 09:01 AMComo tenho o pernicioso e anti-econômico hábito de exigir as coisas muito bem explicadinhas - tendência mal vista pelos editores de livros de consumo popular (justamente os que dão lucro) - atrevo-me a discodar do grande Fernando Pessoa. Somente com muito esforço poético é possível dizer que "só aos poetas e filósofos compete a visão prática do mundo". O poeta é, essencialmente, um sonhador. Vive mergulhado no subjetivismo. Uma assembléia de poetas, apenas poetas, jamais chegaria a qualquer decisão prática. Seria, talvez, uma delícia ouvi-los, mas conclusão factível seria melhor não esperar. Eles procuram a beleza, não a praticidade. Quanto mais abstrato, vago(?), distante do mundo real, maior o mérito poético. Quanto aos filósofos, há espécimes para todo o gosto. Um certo filósofo idealista dizia que a única realidade é aquela que nós percebemos. Se não está no nosso cérebro, não existe. Em termos práticos: se alquém nos mata quando dormimos, poderíamos acordar vivinhos da silva porque, não tendo percebido nosso próprio assassinato, este não ocorreu. A única possibilidade de "salvar" a Filosofia será forçando-a a se aproximar da ciência, com suas técnicas rigorosas de examinar o mundo dos fenômenos. Principalmente usando mais o senso comum, que nos fornece um salutar "desconfiômetro" quando ouvimos algo que afronta nossos sentidos. O próprio "senso comum" merece ser conferido e testado. Ciência´, no fundo, é desconfiança. Quanto ao "governo do mundo", é natural que os governantes tenham que escolher muito suas palavras (que transportam idéias), quando se dirigem ao público, porque este é composto de amigos, inimigos e indiferentes, e seria tolo fornecer aos inimigos material para ser usado contra eles, governantes. Aliás, o homem ( e a mulher, claro) mentem, vez por outra ( por veze exageram...), para conseguir viver em sociedade. Mentiras não propriamente malévolas, mas necessárias para um bom relacionamento e prestígio social.
Afixado por: Francisco Cesar Pinheiro Rodrigues em fevereiro 1, 2006 11:06 AMRealmente este excerto está ou muito denso em conteúdo ou mal traduzido. O que ele quis dizer com:"Ver claro é não agir"? Realmente não entendi...
Afixado por: Phil em fevereiro 6, 2006 04:58 AM