Não há razão, caro Lucílio, para só buscares amigos no foro ou no senado: se olhares com atenção encontrá-los-ás em tua casa. Muitas vezes um bom material permanece inutilizado por falta de quem o trabalhe. Tenta, pois, e vê o resultado. Tal como é estupidez comprar um cavalo inspeccionando, não o animal, mas sim a sela e o freio, assim é o cúmulo da estupidez julgar um homem pela roupa ou pela condição social, que, de resto, é tão exterior a nós como a roupa. «É um escravo». Mas pode ter alma de homem livre. «É um escravo». Mas em que é que isso o diminui? Aponta-me alguém que o não seja: este é escravo da sensualidade, aquele da avareza, aquele outro da ambição, todos são escravos da esperança, todos o são do medo.
Posso mostrar-te um antigo cônsul sujeito ao mando de uma velhota, um ricalhaço submetido a uma criadita, posso apontar-te jovens filhos de nobilíssimas famílias que se fazem escravos de bailarinos: nenhuma servidão é mais degradante do que a voluntariamente assumida. Aí tens a razão por que não deves deixar que os nossos tolos te impeçam de seres agradável para com os teus escravos, em vez de os tratares com altiva superioridade. É preferível inspirar respeito do que medo. (...) Quem é respeitado é também amado, ao passo que o amor nunca pode ir de par com o medo.
Séneca, in 'Cartas a Lucílio'
O meu singelo comentário assenta no seguinte pressuposto; nunca se deve julgar alguém de ânimo leve, muito menos apenas pelo seu aspecto exterior. Quanto à questão do respeito versus medo, tudo aponta para que já naquela altura se acreditasse que a inteligência e a razão seriam os instrumentos necessários para que a buçalidade se fosse amenizando e que um homem tratando um seu semelhante como tal, aos olhos do próximo fosse visto sempre como uma pessoa de bom trato.-
Afixado por: hugo faria em fevereiro 13, 2006 10:57 PMUm excerto que certamente representa muito dos trabalhos mais expressivos que se tem na História. Sêneca, apesar de aristocrata, sempre procurou trabalhar a relação existente entre escravos e senhores,desenvolvendo a fabulosa filosofia de que todos eram escravos de algo,o que não valia aos desmerecimentos. Certamente foi provocou muitas iras e inimizades(ele era de família aristocrata).
A escravidão romana em muito passava a transformar o conceito de cidadania, de escravo livre,com longas tradições de punição e desmerecimentos que se prolongou em futuros vassalatos,susseranos e egerações de submissão e violências...
Além disto ele viveu em um paríodo caótico de Roma,justamente entre dois dos mais mal falados imperadores:Calígula e Nero(onde foi seu tutor) e teve de no final cometer suicídio por obrigação..um trágico destino,uma trágica época,contudo grandes trabalhos!
Um louvor a este filósofo-gênio!