fevereiro 28, 2006

Perdoar e Esquecer

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o carácter é absolutamente incorrigível e todas as acções humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente. (...) Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exactamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade.

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Publicado por pns em fevereiro 28, 2006 11:33 AM
Comentários

este autor Shopenhaeur foi um dos mestres de estilo do falecido Frederico Nietzsche - ambos sabiam escrever! e curioso tinham na sua época tão poucos leitores...
pergunto-me hoje quantos iguais a eles não haverá a escrever tão bem...

Afixado por: alexnietzsche em março 1, 2006 02:16 PM

Perdoar não significa que se tem de esquecer, nem tão pouco significa ser fraco. Significa que nos é suficiente viver com um erro cometido por outra pessoa, se tudo o resto vale a pena. Quanto à reincidência do carácter humano, tanto tem limites para um número de vezes que se comete um erro, como para as vezes que se perdoa.

Afixado por: mauro em março 2, 2006 02:24 PM

Devemos no máximo perdoar mas não esquecer.Aliás isso é até num certo ponto impossível pois para além das limitações neurológicas o Homem tem uma tendência inata ou não (esta tendência poderá ter raízes biológicas que levam o Homem a lembrar-se do mal que lhe fizeram para institintivamente se precaver ou saber lidar com um outro precalço similar) que o leva a recordar-se mais daquilo que lhe fizeram de mal do que daquilo que lhe fizeram de bem. No entanto e ainda que possamos "tentar" esquecer que alguém nos fez mal e, isso é possível pelo menos em parte, no entanto não o acho de todo aconselhável. Vejamos: um amigo que nos faz mal não é um amigo, logo não vale a pena investir nessa relação nem tentar reatá-la, pois os laços que a criaram um dia nunca mais serão tão fortes. Está semeada a desconfiança... Tudo bem que todos somos humanos, mas pelos na minha definição de amizade deve haver uma entrega total senão não podemos considerar alguém nosso amigo e vice-versa. Para além disso quem comete um erro e se apercebe de que é perdoado, e também esquecido o incidente cometido, cometê-lo-a de novo com a ideia inconsciente de que será de novo perdoado. Deste modo o que se deve fazer será perdoar mas nunca esquecer aquilo que nos fizeram, pois se o fizermos isso poderá ser usado contra nós mais tarde.

Afixado por: Sara Figueira em março 2, 2006 06:38 PM

Schopenhauer foi muito radical em seu pessimismo.Concordando tanto com os comentários de mauro e Sara Figueira,complemento que não cabe a nós apenas perdoar,mas perdoar com objetivos.Deste modo,caso as coisas desandem novamente,mesmo após breve conversa(não deve ser tratado o caso com raios e trovões, se o 'outro' insistir na posição que te desagrada,cabe a ti,distanciar-se lentamente,sem rupturas geradoras de ódio e rancor,mas o distanciamento pela ausência cada vez mais gradual,de modo a acostumá-lo de que estás com alguma preferência inferior em relação aos demais. Assim, caso ele sinta realmente falta, recorrerá atrás de ti com novas idéias que talvez lhe agradem mais e justifique a amizade mais intensamente.
A cautela é prioritaria neste diálogo mútuo.

Afixado por: Phil em março 5, 2006 12:49 AM

Começo a tornar-me adepto deste senhor, Arthur Schopenhauer.

Julgo que o acto de perdoar deve residir em parte na ilusão de que o erro não se repetirá, pois caso contrário torna-se hipócrita em si mesmo. Contudo, o equílibrio necessário para resolver estas questões é assumir uma ingenuidade relativa que possibilite, simultaneamente, acreditar no arrependimento da pessoa que erra e facultar-lhe o perdão; e estar atento a eventuais repetições intencionais.
Por vezes é preciso cair duas vezes numa mesma armadilha para se ter a certeza da intencionalidade de quem a provocou...
(www.marceladas.blogspot.com)

Afixado por: Marcelo Melo em março 16, 2006 06:00 PM

Concordo com o Phil, no entanto e o problema que muitas vezes se nos coloca é o de o outro não conseguir perceber que algo não está bem. Mesmo quando se apercebe disso saberá ele que deveria agir de outra forma? E se assim for saberá como agir? Para isso, tanto para se aperceber do seu comportamento como para o mudar, muitas vezes é precisa uma sensibilidade que nem todos possuem.

Afixado por: Sara Figueira em abril 14, 2006 09:22 PM

Ingenuidade relativa? O mundo em que vivemos não permite isso e por certo que o equilíbrio não passa pela ingenuidade. Só o facto de se ser ingénuo nos dias de hoje é já um desafio, para além disso como pode haver ingenuidade relativa? Todo o indivíduo ingénuo quando se apercebe disso deixa de o ser, pelo menos em parte. No entanto concordo com o Marcelo Melo quando diz que devemos "acreditar no arrependimento da pessoa que erra e facultar-lhe o perdão", porém a prática ou não do referido deve estar dependente de inúmeros factores internos e externos a situação e aos intervenientes.
Cair duas vezes na mesma armadilha não é ser ingénuo é ser cego e o pior cego é aquele que não quer ver.

Afixado por: Sara Figueira em abril 14, 2006 09:41 PM
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