março 06, 2006

A Força da Ignorância

Por que causa a ignorância nos mantém agarrados com tanta força? Primeiro, porque não a repelimos com suficiente energia nem usamos todas as nossas forças para nos libertarmos dela; depois, porque não confiamos o bastante nas lições dos sábios nem as interiorizamos como devíamos, antes tratamos uma tão magna questão de forma leviana. Como pode alguém, aliás, aprender suficientemente a lutar contra os vícios se apenas dedica a esse estudo o tempo que os vícios lhe deixam livre?...

Nenhum de nós aprofunda bastante esta matéria; abordamos o assunto pela rama e, como gente extremamente ocupada, achamos que dedicar umas horas à filosofia é mais do que suficiente. E o que mais nos prejudica é a facilidade com que o nosso amor próprio se satisfaz. Se encontramos alguém que nos ache homens de bem, homens esclarecidos e irrepreensíveis, logo nos mostramos de acordo! Nem sequer nos contentamos com louvores comedidos: tudo quanto a adulação despudoradamente nos atribui, nós o assumimos como de pleno direito. Se alguém nos declara os melhores e mais sábios do mundo, nós assentimos, mesmo quando sabemos que esse alguém é useiro e vezeiro na mentira! A nossa autocomplacência vai mesmo tão longe que pretendemos ser louvados em nome de princípios que as nossas acções frontalmente desmentem (...) A consequência é que ninguém mostra vontade de corrigir o seu carácter, pois cada um se considera a melhor pessoa deste mundo...

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

Publicado por pns em março 6, 2006 09:00 AM
Comentários

Eu não chamaria de "força da ignorância" pelo que Sêneca nos disse,mas sim "força da imagem".

Afixado por: Phil em março 6, 2006 05:08 PM

"Como pode alguém, aliás, aprender suficientemente a lutar contra os vícios se apenas dedica a esse estudo o tempo que os vícios lhe deixam livre?..." O que são os vícios?Não são um reflexo da natureza Humana? E isso da "força da imagem" não será um reforço da ignorancia, tão aclamada por nós seres? MAS, não será já a crítica uma forma de ignorância, uma apropriação da razão que se desconhece, mas se transmite? Será que não será já de grande ignorância e falsidade assumir como verdadeiras as opiniões que sentimos quando falamos dos outros, se não podemos saber o seu interior pensamento? Será que adivinhamos(?) ou pensamos que sabemos que sentimos o que os outros sentem? Não existem sábios, porque o verdadeiro sábio não se assume como tal. Será que algum ser humano consegue abarcar toda a sabedoria que existe no mundo? O sábio é um homem humilde, será?

Afixado por: Paula Sousa em março 7, 2006 01:59 PM

Não só no elogio adulador se percebe força da ingnorância humana.
Na crítica, sobretudo quando um sujeito é diminuído socialmente por outrem e sente vergonha ou desconforto com isso, a força da ignorância vem à tona pelo funcionamento da sua mente, pelo arranjar de atenuantes que desculpem a sua falha, em vez de a assumir.
E quanto ao sábios, parece-me que para o serem, não podem saber que o são.
(www.marceladas.blogspot.com)

Afixado por: Marcelo Melo em março 8, 2006 02:19 PM

Não só no elogio adulador se percebe força da ingnorância humana.
Na crítica, sobretudo quando um sujeito é diminuído socialmente por outrem e sente vergonha ou desconforto com isso, a força da ignorância vem à tona pelo funcionamento da sua mente, pelo arranjar de atenuantes que desculpem a sua falha, em vez de a assumir.
E quanto ao sábios, parece-me que para o serem, não podem saber que o são.
(www.marceladas.blogspot.com)

Afixado por: Marcelo Melo em março 8, 2006 02:20 PM


"Podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio", já diria Freud.

Antes da sabedoria, sempre há a ignorância. Creio que temos de cair nos vícios para nos podermos livrar deles ou, antes, nem sequer tocá-los, mas, assim, nunca saberemos o que eles realmente são.

Normalmente, somos que nomeamos alguém sábio ou não. "Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas. O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm?", já diria Schopenhauer.

Afixado por: Thiago Lessa em março 8, 2006 09:05 PM
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