março 15, 2006

O Livre-Arbítrio não Existe

Contemplando uma cascata, acreditamos ver nas inúmeras ondulações, serpenteares, quebras de ondas, liberdade da vontade e capricho; mas tudo é necessidade, cada movimento pode ser calculado matemáticamente. O mesmo acontece com as acções humanas; poder-se-ia calcular antecipadamente cada acção, caso se fosse omnisciente, e, da mesma maneira, cada progresso do conhecimento, cada erro, cada maldade. O homem, agindo ele próprio, tem a ilusão, é verdade, do livre-arbítrio; se por um instante a roda do mundo parasse e houvesse uma inteligência calculadora omnisciente para aproveitar essa pausa, ela poderia continuar a calcular o futuro de cada ser até aos tempos mais distantes e marcar cada rasto por onde essa roda a partir de então passaria. A ilusão sobre si mesmo do homem actuante, a convicção do seu livre-arbítrio, pertence igualmente a esse mecanismo, que é objecto de cálculo.

Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

Publicado por pns em março 15, 2006 09:00 AM
Comentários

de todos o HUMANO DEMASIADO HUMANO era há muitos anos atrás um dos livros mais difíceis de comprar - havia nas livrarias quase todos menos o HUMANO - depois passados pelo menos uma dezena de anos fizeram-se novas reedições - nessa altura (como hoje) os leitores de Nietzsche eram raros - e Nietzsche era mesmo para a maioria das pessoas um nome desconhecido - ainda hoje infelizmente a sua obra é para a maioria da humanidade desconhecida.
A mais justa homenagem à sua obra é divulgá-la - tenho a certeza que o mundo seria diferente, e arrisco dizer, melhor.

Afixado por: Alexnietzsche em março 15, 2006 03:23 PM

Poderia Nietzsche estar sutilmente nos falando sobre causas e efeitos? Mas nega-os!
A "necessidade" de que ele fala me traz muito a idéia de dialética.

Afixado por: Karina em março 15, 2006 03:47 PM

O trecho lembra-me o paradoxo da existência de todo o homem. Não tem como saber se vive numa realidade autónoma ou se é simplesmente fantoche de outra realidade, um personagem criado e contextualizado, tal e qual sucede nas histórias dos livros.
(www.marceladas.blogspot.com)

Afixado por: Marcelo Melo em março 15, 2006 05:28 PM

o gajo dizia isso porque estava numa cadeira de rodas e era brutalmente enfemero. Tem que se ter a condição da pessoa em causa. Parece que tudo o que dizemos é para atingirmos uma conformidade com o nosso estado. Se sou preguiçoso, penso que não há pressa de fazer as coisas, e tanto posso fazê-las como não, é inimportante. Se sou trabalhador penso que tenho de fazer as coisas, é importante, as coisas "têm" de ser feitas. E penso muitas outras coisas todas dependentes desse estado em que me encontro.
Ora se não me posso mexer, não tenho tanta liberdade como os outros, penso que ninguém tem liberdade e o mundo é assim. Mas se me posso mexer... okey e assim se perde 1 minutito a ler isto que escrevi:mal.

Afixado por: Excremento Celestial em março 18, 2006 09:35 AM

Vê-se aí que a História é uma relação complicada para Nietzsche,uma vez que assim como homem é repetição, esta também.

Curioso pensar a quem pertenceria este arbítrio se não a nós e nem a Deus... talvez muito mais um mecanismo de contravensão da mente,algo que precisamos pensar que existe para que através dessas concepções arquitetadas possamos seguir confiantes,sem medo,e com determinação que estamos seguros com aquela concepção arquitetada que no fundo não passa de uma fantasmagoria nossa.

Afixado por: Phil em março 26, 2006 04:35 AM
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