março 29, 2006

Hábitos Breves

Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até à medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar.
E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objecto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver.

Em compensação, odeio os hábitos que duram, parece-me que tiranos se aproximam de mim para inquinar o meu ar vital com o seu hálito, logo que os acontecimentos se orientam de tal maneira que parece deverem sair deles hábitos definitivos: por exemplo, devido a uma função social, à frequência constante do mesmo meio, de uma residência determinada, de um género de saúde exclusivo. Confessarei até que, no mais fundo da minha alma, estou grato às minhas misérias físicas, à minha doença e a todas as minhas imperfeições, porque me deixam mil portas de saída que me permitem escapar aos hábitos definitivos. O que me seria, para falar verdade, mais insuportável, o que verdadeiramente me aterraria, seria uma vida totalmente despojada de hábitos, uma vida que exigisse uma improvisação constante; isso seria o meu exílio, seria a minha Sibéria.

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'

Publicado por pns em março 29, 2006 09:00 AM
Comentários

O trecho divide-se em dois, a parte em que é enunciada reflexão e a parte em que Nietzsche fala de si e de como se vê perante a reflexão que fez.
Claro que só me cabe comentar a primeira parte. Aí, tenho a dizer que acho interessante a ideia abrangente de hábito, que incorpora, neste texto, mais do que tradicionalmente lhe atribuimos.

[www.marceladas.blogspot.com]

Afixado por: Marcelo Melo em março 30, 2006 06:20 PM

Achei bem curioso Nietzsche ter criado um novo conceito de hábito:o "hábito breve". Seria realmente formidável que todo o hábito fosse breve e não apenas hábito!

O gênero humano se vicia e Nietzsche bem sabe disso. Deste modo, a questão das doenças é agente da quebra das rotinas,algo genial uma vez que quando adoentados tendemos(é apenas uma tendência, a tendência da dor) a mudar de hábito uma vez que temos a nós ou aos delírios da doença que ser submetidos,mas vem a pergunta: E depois da doença? Voltaríamos aos hábitos? Muito provavelmente.

De fato na doença há uma quebra,todavia talvez a verdadeira solução para este hábito é pautar na vivência amores rachados,sentimentos antes obsessivos,depois da dor do término,que vem do sentimento e não do corpo propriamente,algo mais fecundo e impactuante em nós. Talvez assim tenhamos um pensamento mais "consciente"(ou inconsciente) de que as coisas nem sempre são para sempre, ou seja, um maior conhecimento a respeito dos homens, de seus pensamentos e atitudes que só através da vivência poderemos descobrir,aproveitando o máximo daqueles momentos "carpe diem" que mais tarde irão ficar reservados em nossa memória,em nosso ser.
Como dizia um ator francês: "A vida é como uma montanha russa,cheia de altos e baixos,é um show de expressividades".

Afixado por: Phil em março 31, 2006 01:33 PM
Site Meter