abril 13, 2006

Ser Injusto é Necessário

Todos os juízos acerca do valor da vida se desenvolveram ilogicamente e são, por isso, injustos. A impureza do juízo encontra-se, em primeiro lugar, na maneira como o material se apresenta, isto é, muito incompleto; em segundo lugar, na maneira como é efectuada a respectiva soma; e, em terceiro lugar, no facto de cada um dos fragmentos do material ser, por seu lado, resultado de um conhecimento impuro e isto, na verdade, de forma absolutamente necessária. Nenhum conhecimento obtido pela experiência acerca, por exemplo, de uma pessoa, por muito perto que esta esteja de nós, pode ser completo, de modo que nós tenhamos um direito lógico a uma avaliação global da mesma. Todas as estimativas são precipitadas e têm de o ser.

No fim de contas, a medida, com a qual nós medimos, ou seja, o nosso ser, não é uma grandeza invariável; nós temos estados de espírito e oscilações, e, não obstante, deveríamos conhecer-nos a nós próprios como uma medida fixa para podermos avaliar justamente a relação de qualquer coisa connosco. Talvez se conclua de tudo isto que não se deveria julgar de todo em todo; mas se se pudesse sequer viver sem avaliar, sem ter antipatia nem simpatia!... Pois toda a aversão está ligada a uma estimativa, tal qual como toda a inclinação. Uma tendência no sentido de qualquer coisa, ou para longe de qualquer coisa, sem um sentimento de que se quer o proveitoso e se evita o prejudicial, uma tendência sem uma espécie de estimativa diferenciadora quanto ao valor do objectivo não existe no ser humano. Nós somos de antemão seres ilógicos e, por isso, injustos, e podemos reconhecê-lo: esta é uma das maiores e mais insolúveis desarmonias da existência.

Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

Publicado por pns em abril 13, 2006 09:00 AM
Comentários

É excerto muito bom de Nietzsche. Faz-nos pensar q valor damos a nós próprios e q direito temos de julgar os outros. Admitindo q temos oscilações e q cometemos erros e q nao somos 100% racionais em 100% da nossa vida, q importância tem o valor q damos ou nao aos outros e q qual é o nosso mérito, ou qual q vantagem p o nosso ego? E nesta época individualista ja cansa tanta competividade entre pessoas.

Afixado por: Gonçalo em abril 19, 2006 09:10 PM

Creio que o título para representação deste excerto não seja este exatamente,mas sim: "Ser Injusto é uma realidade".

Nietzsche como ácido questionador das coisas tocou na ferida do homem.Penso ser este pensar lógico-ilógico,da avaliação prévia e pré-conceituosa,um fato talvez muito mais pautado na ignorância de si,do que de outras coisas. Pensa-se a curto prazo e não a longo, consumando na ânsia do "agora". A própria sociedade nos traz a este pensamento.
Em se pensando na resposta de Nietzsche,haveria possibilidade para formulação de um pensamento distante das considerações malsãs numa espécie de expansão da existência do Eu? Talvez na religiosidade, mas não ao modelo cristão dogmático e moralista,mas sim ao karmático ou místico...apenas possibilidades.

Acho que simplificar a questão dizendo que faz parte da existência e da natureza ou do instinto,seja como for, é acalentador,como se estivessemos despejando areia por cima do problema,o que por sua vez agrava a problemática.É algo muito amplo que isso.
Num mundo como este é preciso idolatrar a dúvida,principalmente no Ocidente.

Afixado por: Phil em abril 30, 2006 04:47 PM

Mas que bela forma de terminar o comentário Phill!

Parece-me que Nietzsche foi claro o suficiente na sua mensagem. Como pode um copo de volume variável medir a capacidade a outros cujo volume é igualmente variável? E com que razão pode cada copo tecer opiniões e relatos tendenciosos sobre os outros?

[www.marceladas.blogspot.com]

Afixado por: Marcelo Melo em maio 1, 2006 06:29 PM
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